Salomón Hakim – Neurocirurgião e inventor

Salomón Hakim

Por:  Dr. Lauro Arruda Câmara Filho
Nasceu em 04 de junho de 1922, na cidade de Barranquilla, Colômbia, filho de Jorge Hakim e Sofia Dow, imigrantes libaneses que haviam morado em Cuba. Ainda pequeno, sua família mudou-se para Ibagué, onde iniciou seus primeiros estudos com os irmãos Maristas. Aos 11 anos, foi para a capital do país, Bogotá, onde passou a estudar como aluno interno com os jesuítas do Colegio Mayor de San Bartolomé. Iniciou seus estudos de medicina na Universidade Nacional de Bogotá. Desde cedo, demonstrou interesse pelo estudo da música, eletrônica e química. Foi monitor de fisiologia e ganhador do prêmio Manuel Foero de Fisiologia da Universidade Nacional de Bogotá. Também foi monitor de semiologia. Seu internato médico foi no Hospital San José de Bogotá, graduando-se em 1948. Sua tese de formatura, com o tema “Sobre movimentos rítmicos em biologia – estudo experimental”, recebeu menção honrosa. Tinha interesse no estudo de eletricidade: estudou o fluxo elétrico durante a digestão mediante eletrogastrografia, o uso de corrente elétrica para indução das contrações uterinas no trabalho de parto e a consolidação de fraturas pela precipitação do cálcio na formação do calo ósseo. Foi adjunto da cátedra de física médica, chefe dos trabalhos práticos dessa disciplina, e chefe do serviço de eletroterapia do manicômio masculino de Sibaté.
Salomón Hakim foi para os Estados Unidos para estudos de pós graduação, esteve em diversos centros médicos em Miami e Nova York, mas fixou-se em Harvard, Boston, e fez especialização em neurocirurgia na Clínica Lahey. Regressou à Bogotá para desenvolver importante atividade neurocirúrgica nos hospitais universitários de San José, San Juan de Dios e como chefe do Serviço de Neurocirurgia e do Departamento de Investigações do Hospital Militar Central.
Em 1954, retornou a Boston para especialização em Neurologia e Neuropatologia no Hospital Geral de Massachusetts, no serviço do Dr. Raymond D. Adms. Em 1957m ao terminar esse período de estudos, voltou para a Colômbia e dedicou-se ao ensino e pesquisa em diversos ramos da medicina, como a física médica, neurocirurgia e a engenharia biomédica em várias universidades de seu país, como Los Andes, Nacional de Bogotá e Javeriana. Era convidado para conferências em academias de medicina na Europa, Oriente Médio, Hong Kong, Coréia do Sul e todo continente americano.
Em seus estudos, Hakim fez numerosas autopsias em pacientes com doença de Alzheimer e com outras enfermidades neurodegenerativas. Observou que a maioria dos casos com aumento das cavidades ventriculares do encéfalo tinham perdas de massa encefálica, mas que outros não tinham essas perdas. Isso o inquietou e passou a ser objeto de suas pesquisas para saber o porquê. Em 1957, atendeu um adolescente de 16 anos que havia sofrido um trauma cranioencefálico em severo acidente automobilístico. O adolescente teve hematoma subdural que foi drenado, mas continuava com severas alterações do estado de consciência, semicomatoso, mas sem sinais clínicos de hipertensão intracraniana, tendo sido diagnosticado com dano cerebral irreversível. O Dr Hakim realizou o exame pneumoencefalograma, que mostrou aumento das cavidades ventriculares com pressão intracraniana normal. Surpreendentimente, o paciente melhorou e voltou a falar depois de vários meses após a retirada de 15 ml de líquido cefalorraquidiano (líquor) para exames laboratoriais, mas teve uma recaída e novamente melhorou com nova retirada de líquor. Dr Hakim resolveu então fazer a drenagem do líquor dos ventrículos cerebrais para a aurícula direita do coração.
Esta derivação ventrículoatrial trouxe uma melhora constante e permitiu ao jovem retornar aos seus estudos três meses. Este jovem, chamado Fernando Anaya, entrou para história da medicina como o primeiro paciente tratado de hidrocefalia com pressão intracraniana normal. Salomón Hakim descobriu a doença e também propôs seu tratamento. A descoberta de Hakim fundamentou-se na definição física de pressão e do princípio de Pascal: um líquido dentro de um recipiente exerce a mesma magnitude de pressão em todas as direções; a pressão, por sua vez, se define como a força exercida por unidade de área e, portanto, a força que exerce um líquido num recipiente pode expressar-se matematicamente como a pressão multiplicada pela área. Hakim observou que em ventrículos aumentados , uma pressão do líquor dentro dos limites da normalidade produz uma força maior proporcional ao aumento da área desses ventrículos.
A descoberta de Hakim foi publicada em revista da Universidade Javeriana da Colômbia, mas foi recebida com ceticismo por muitos, inclusive por Dr. Raymond Adams, seu orientador americano. Pouco tempo depois do anúncio de sua descoberta, Dr Hakim atendeu uma paciente americana que trabalhava na embaixada dos EUA na Colômbia, com diagnóstico de hidrocefalia com pressão intracraniana normal e propôs a drenagem do líquor. A família da paciente não aceitou e resolveu levá-la para os EUA, mesmo com o alerta de Dr. Hakim que lá o problema não seria solucionado. Dr. Hakim resolveu então acompanhar a paciente até ao Massachutsetts General Hospital e lá realizou a drenagem na presença do Dr. Raymond Adams, que se convenceu dos benefícios do tratamento proposto por ele. A partir desse acontecimento, houve publicação nas conceituadas revistas Journal of the neurological Sciences e New England Journal of Medicine.
São características da síndrome da hidrocefalia normotensiva: alterações da marcha, déficit cognitivo e incontinência urinária, quando associados ao aumento do tamanho dos ventrículos cerebrais. A repercussão na comunidade científica foi imensa, pois pela primeira vez poderia um tipo de demência ser tratado com sucesso.
Para o tratamento da hidrocefalia normotensiva, o Dr. Hakim desenvolveu em 1966 uma válvula unidirecional para regular a drenagem do líquor – ele trabalhava em sua própria oficina para a fabricação das válvulas e outras ferramentas médicas. Patenteou seu invento nos EUA, e devido à grande demanda pela válvula de Hakim em todo o mundo, cedeu os direitos de fabricação no exterior para empresa Cordis.
Dr. Hakim era casado com Ivette Daccach. Os filhos Fernando e Rodolfo são neurocirurgiões formados na Universidade de Harvard; o outro, Carlos, é engenheiro biomédico com PhD pelo Massachutssts Institute of Tecnology (MIT). Carlos Hakim aperfeiçoou a válvula criada pelo seu pai, criando um modelo que permite manipular e programar via transdérmica a graduação da pressão do fluxo do líquor.
Dr. Hakim patenteou vinte e oito inventos e escreveu mais de 70 artigos em revistas científicas internacionais . Ele faleceu em Bogotá, dia 5 de maio de 2011, aos 89 anos, devido a uma hemorragia cerebral.