Eunice Sousa Gabbi nasceu em 19 de setembro de 1902, em uma fazenda de café em São Manuel, no interior de São Paulo, filha de Henrique Gabbi, carpinteiro natural de Reggio Emilia (Itália) e de Leopoldina Gabbi,  descendente de imigrantes suíços. Quando Eunice tinha três anos,  sua família mudou-se para Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, onde fez os seus estudos primários no Colégio União. Na adolescência, com a morte da mãe, foi morar em Piracicaba-SP,  onde formou-se na Escola Normal e também fez o curso de Educação Sanitária.

Durante férias em uma fazenda no interior de São Paulo, encontrou-se com uma conhecida que havia morado em  sua vizinhança que estava com um grupo de pessoas miseráveis e maltrapilhas que viviam de esmolas: era Rosa Fernandes, que  estava desaparecida – seus  pais a davam como morta por afogamento num rio. Rosa fingiu a própria morte e passou a viver como mendiga para não ser segregada da sociedade por ser portadora de lepra. Naquela época, os leprosos eram compulsoriamente afastados do convívio familiar e da sociedade e confinados em leprosários.

Em  1927, reencontrou o seu antigo professor e diretor do Colégio União, o missionário americano Charles Anderson Weaver, que era viúvo. Os dois casaram-se seis meses depois e ela passou a chamar-se Eunice Weaver. O casal não teve filhos, mas Eunice cuidou dos quatro filhos do primeiro casamento do marido. Foram morar nos Estados Unidos, onde Eunice cursou a Escola de Serviço Social da Universidade da Carolina do Norte.

Um ano mais tarde, Charles foi convidado pela Universidade de Nova Iorque a dirigir a Universidade Flutuante da América do Norte instalada num transatlântico, que faria uma viagem ao redor do mundo para melhor formação de seus alunos. Partiu do Rio de Janeiro acompanhado pela esposa, que aproveitou para estudar Jornalismo, Sociologia, Serviço Social e Filosofias Orientais, em visita a 42 países. Durante essa viagem, visitou templos  budistas e  foi  ao Himalaia. Entrevistou durante quatro horas o Mahatma Gandhi, de quem recordava: “Foi o homem mais próximo de Jesus Cristo que conheci“. Por onde passou, interessou-se pelo problema da hanseníase, em lugares como as Ilhas Sandwich, Japão, China, Índia e Egito.

De volta ao Brasil, o casal foi morar em Juiz de Fora/MG, onde Charles Weaver lecionava no Colégio Metodista Granbery. Eunice também foi professora desse educandário de 1931 a 1934, quando começou seu trabalho de combate à lepra, participando da criação da  Sociedade de Assistência aos Lázaros.  Atuava na estação ferroviária dando assistência aos hansenianos e os acolhia no leprosário Santa Isabel, onde oferecia-lhes roupas, cobertores e refeições.

Fundou o Educandário Carlos Chagas, também  em Juiz de Fora (1932), e o Educandário Santa Maria, no Rio de Janeiro, para cuidar dos filhos dos doentes de lepra;  e estimulou a criação de outros educandários por todo o Brasil.
Em 1935, obteve do então presidente da República Getúlio Vargas a promessa de auxílio oficial para a obra, no montante do dobro do que ela conseguisse arrecadar junto à sociedade civil. Com esse acordo, Eunice dedicou-se a viajar por todo o país, divulgando a campanha da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa contra a Lepra. Devido à precariedade na assistência à saúde, coube às associações de voluntários não só o combate à lepra (ou hanseníase) , mas também a tuberculose, o estímulo à   vacinações e a proteção às crianças e a maternidade.

Em 02 de agosto de 1939 Eunice Weaver esteve em Natal pela primeira vez, ocasião em que visitou o Leprosário São Francisco de Assis, no km 6 da ferrovia Great Western,  e as obras de construção do Educandário Oswaldo Cruz, na avenida Hermes da Fonseca ( onde hoje funciona a Escola Freinet).

Foi  a primeira mulher a receber no país, a Ordem Nacional do Mérito, no grau de Comendador (Novembro de 1950), e a primeira pessoa na América do Sul a receber o troféu Damien-Dutton.  Publicou a “Vida de Florence Nightingale”, “A Enfermeira” e “A História Maravilhosa da Vida”. Representou o Brasil em inúmeros congressos internacionais sobre a hanseníase, tendo organizado serviços assistenciais no Paraguai, em Cuba, no México, na Guatemala, na Costa Rica e na Venezuela.

Em setembro de 1951, Eunice Weaver voltou à Natal para divulgar  a “Campanha  do selo Pró-Filho Sadio do doente de Lepra”. Foi homenageada com um banquete na Escola Doméstica e depois fez uma visita às instalações do Educandário Oswaldo Cruz, destinado à educação dos filhos dos leprosos.

Em 1957 , Dr. Varela Santiago se empenhava em conseguir um terreno da Marinha na praia de Cotovelo para construir uma Colônia de Férias dos internos do Educandário Oswaldo Cruz. O processo de doação foi agilizado graças à intervenção de Eunice Weaver junto ao governo federal – na época, o presidente era Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Foi homenageada com o título de “Cidadã Carioca” ao completar 25 anos na direção da Federação de Assistência contra a Lepra (1960) e com o título de “Cidadã Honorária de Juiz de Fora” (11 de Setembro de 1965). Foi a delegada brasileira no 12º Congresso Mundial da Organização das Nações Unidas (Outubro de 1967). Em diversos estados do Brasil, instituições de assistência aos hansenianos levam o nome de “Sociedade Eunice Weaver”.

Faleceu subitamente aos 67 anos, em 9 de dezembro de 1969, numa viagem de retorno do Rio Grande do Sul. O seu corpo encontra-se sepultado ao lado do marido, no Cemitério dos Ingleses, no Rio de Janeiro.

Por Dr. Lauro Arruda Câmara Filho – Cardiologista