Por Dr. Lauro Arruda Câmara Filho – Cardiologista

Nasceu em 16 de março de 1819, em Charlton, condado de Worcester, Massachusetts-EUA. Teve ensino básico e secundário em Northfield e Leicest Academies. Em1836, trabalhou em Boston em lojas comerciais como escriturário e vendedor. Em 1840, iniciou seu curso de cirurgião-dentista  na primeira escola de dentistas do mundo, a   Baltimore College of Dental Surgery, no estado de Maryland-EUA , onde conheceu o professor Horace Wells e iniciou seu interesse em pesquisa com anestésicos. Passou a trabalhar como dentista em 1844, em Boston, onde fazia extrações dentárias sem dor, utilizando inalação de éter como anestésico. Começou a estudar medicina , mas nunca concluiu o curso.

Até então, a insensibilidade total durante o ato cirúrgico era considerada uma utopia nos meios acadêmicos. À exceção da China, onde se usava a milenar acupuntura, os recursos utilizados para amenizar a dor no ato cirúrgico consistiam de extratos de plantas dotadas de ação sedativa e analgésica, gelo, esponja soporífera, compressão das carótidas e até concussão cerebral,  além da hipnose e embriaguez por bebidas alcoólicas, o que não dispensava, evidentemente, a contenção do paciente.

O primeiro passo para a anestesia geral inalatória foi dado na Inglaterra: Joseph Priestley descobriu o gás óxido nitroso (N20) em 1773 ( também chamado de  protóxido de nitrogênio ou protóxido de azoto) e coube a Humphry Davy (1796) experimentar os efeitos deste gás que produzia sensação agradável, acompanhada de um desejo incontido de rir (daí ser conhecido como “gás hilariante”).

Em 1844, em Hartford, Connecticut, um jornal anunciou a presença na cidade do “ Circo do Gás Hilariante” de Gardner Quincy Colton (1814- 1898), sendo sua maior atração o “gás da alegria” que era oferecido a voluntários da platéia. Um cirurgião-dentista de 29 anos, Horace Wells, subiu ao palco e inalou o óxido nitroso, começou a correr, rir e  fazer estripulias juntamente com outras pessoas, todos sem o menor senso do ridículo. Quando passou o efeito do gás hilariante, Wells observou que um dos voluntários estava a dançar e rir  apesar de um ferimento provocado por uma forte pancada na quina  afiada de um banco, jorrando sangue e com a tíbia parcialmente exposta. Wells então pensou em usar esse gás para aliviar as dores de seus pacientes odontológicos; pediu ao seu colega Jonh Riggs para fazer-lhe uma extração dentária após inalar o óxido nitroso. Não sentiu dores e a partir de então passou a ficar famoso por seus tratamentos indolores. Na companhia de seu sócio, Willian Morton, procurou o cirurgião Jonh Collins Waren, do Hospital Geral de Massachussetts, em Boston, para uma demonstração técnica do método inalatório de anestesia com óxido nitroso (N20).

Horace Wells fracassou em demonstração da ação do óxido nitroso como anestésico cirúrgico. Na presença do cético Dr John Collin  Warren, convocou um voluntário da platéia do anfiteatro para uma extração dentária indolor. Apresentou-se como voluntário um homem corpulento, obeso e alcoólatra. O homem dormiu após a inalação do óxido nítrico, porém irrompeu em terríveis gritos  quando Wells fez movimentos com o boticão em seu dente. A platéia do anfiteatro começou a vaiar e a xingá-lo, chamando-o de embusteiro, vigarista, picareta e charlatão. Após esse episódio infeliz, Wells nunca mais se equilibrou na vida. Tornou-se dependente em óxido nitroso, depois em éter e clorofórmio. Passou a viver na sarjeta, agrediu com ácido sulfídico uma prostituta e por isso foi preso. Cometeu suicídio aos 48 anos, na prisão, cortando a artéria femural.

William Morton, aconselhado pelo seu ex- professor de química Charles Jackson,  passou a substituir o óxido nitroso pelo éter como anestésico. Fez experimentos em cães com sucesso. Em 30 de setembro de 1846, Morton administrou éter dietílico ao professor de música Eben Frost para uma exitosa extração dentária indolor –  o éter dietílico foi descoberto pelo árabe Jabir Ibn Hayyan (século VIII) e usado no ocidente pela primeira vez  pelo alquimista espanhol Raymundus Lully ( 1253- 1315). Paracelso (1493-1541) foi o 1º a perceber sua capacidade de reduzir a consciência de animais (1525).

Em 16 de outubro de 1846 , às dez horas, no anfiteatro cirúrgico do Massachusetts General Hospital, em Boston, o cirurgião John Collins Warren realizou a extirpação de um tumor no pescoço de um jovem de dezessete anos, chamado Gilbert Abbot. o paciente foi anestesiado com éter pelo dentista William Thomas Green Morton, que utilizou um aparelho inalador por ele idealizado. A cena deixou de ser documentada fotograficamente, porém foi posteriormente imortalizada em um quadro do pintor Robert Hinckley, pintado em 1882. Warren,  vibrando,exclamou: :

“Daqui a muitos séculos, os estudantes virão a este hospital para conhecer o local onde se demonstrou pela primeira vez a mais gloriosa descoberta da ciência”

Inicialmente Thomas Green  não revelou qual a natureza química da substância que usara no inalador, dando-lhe o nome de letheon. Como havia investido suas economias nas pesquisas e negligenciado seu trabalho no consultório, tentou patentear sua descoberta. O senado americano e a Sociedade Médica de Boston negaram-lhe a patente por considerar a descoberta pertencente à humanidade,  e proibiram Morton de usar sua substância enquanto não revelasse a sua natureza. Morton abriu mão do seu segredo para que uma criança pudesse ser submetida a uma amputação de perna sem dor.

Um dia, ao ler um artigo do seu ex-professor  Charles Jackson que o desvinculava da descoberta da anestesia,  Morton teve uma raiva tão grande que provocou-lhe um pequeno acidente vascular cerebral(AVC). Viajou  para  Nova York com a intenção de refutar os escritos de Jackson. No dia 15 de julho de 1868, porém, aos 49 anos, no Central Park , sofreu um segundo e fatal AVC .

Três americanos disputaram a gloria da descoberta da anestesia moderna:

  • Crawford Williamson Long , que, em 30 de março de 1842, operou no estado da Geórgia um viciado em éter (James M. Venable) e obtendo sucesso passou a utilizar o éter em cirurgias de retirada de pequenos tumores e verrugas – suas experiências, porém, não foram documentadas (o éter foi o anestésico mais usado até a segunda metade do século XX,  mas foi posteriormente substituído por substâncias mais seguras, já que seu principal problema é o fato de ser explosivo). Ele é o patrono da anestesiologia americana
  • Horace Wells
  • Willian Thomas Green Morton – Thomas Green Morton convenceu a comunidade científica da eficiência da anestesia pelo éter e a data de 16 de outubro passou a ser o Dia Mundial da Anestesiologia. Ele é o patrono da anestesiologia brasileira. Em sua sepultura, tem o seguinte epitáfio :

“Aqui jaz W. T. G. Morton, o descobridor e inventor da anestesia. Antes dele, a cirurgia era sinônimo de agonia. Por ele foram vencidas e aniquiladas as dores do bisturi. Depois dele a ciência é senhora da dor”.

Fonte:  História e Estória da Anestesiologia Potiguar,SAERN (2017), Nilton do Vale, Armando Negreiros, José Delfino,Ronaldo Fixina e Sérgio Lima.