WILLIAM HEBERDEN: descreveu a Angina do Peito

William Heberden

Por:  Dr. Lauro Arruda Câmara Filho

Nasceu em Southwark, em Londres, Inglaterra, em 13 de agosto de 1710. Seus primeiros estudos foram na St. Saviour’s Grammar School. Aos 14 anos,  com apoio de um mestre,  conseguiu entrar para o St John’s College, em Cambridge, onde obteve fellowship em 1730, sendo diplomado mestre em artes em 1732 e  médico em 1739. Permaneceu em Cambridge exercendo as atividades  de clínica e de ensino por sete anos. Retornou para Londres, onde teve uma rica e produtiva carreira profissional.

Em 1746, foi admitido na The Royal College  of Physicians of London, onde destacou-se no Medical Transactions , um fórum em que seus membros reportavam suas descobertas e casos clínicos para discussões. Em suas atividades clínicas, Heberden identificou a varicela (catapora) como uma enfermidade do grupo dos exantemas, sendo distinta da varíola; descreveu a ”cegueira noturna” e descobriu os nódulos reumáticos nas falanges digitais, conhecidos até hoje como “nódulos Heberden”; reconheceu a púrpura da vasculite de hipersensibilidade e apesar de não entender a verdadeira natureza da diabetes defendia que a poliúria dessa doença não estava relacionada aos rins. Heberden se opôs a algumas terapias agressivas usadas no seu tempo, incluindo sangrias excessivas, purgação, sudorese excessiva e outros tratamentos usados por charlatães.

Heberden era culto, amante da literatura inglesa e universal e um astrônomo amador. Compreendia o latim, o grego e o hebraico. A sua descrição da “angina do peito”,  baseada nas observações clínicas de seus pacientes, foi apresentada ao College of Physicians em 21 de junho de 1768 e publicada em 1772 no Medical Transactions sob o título  “Algumas considerações de um distúrbio do peito”:

Há um distúrbio no peito marcado por sintomas fortes e peculiares, com considerável perigo  e não tão raro, mas não recordo de nenhuma citação sobre ele na literatura médica. Num primeiro momento, as pessoas que são afetadas por ele são acometidas enquanto estão caminhando, e, mais particularmente,  quando caminham logo após às refeições.  Sentem  dor e uma sensação no peito muito desagradável, que parece que vai retirar-lhes  suas  vidas se a dor aumentar ou continuar: no momento que eles param de caminhar, no entanto,  toda essa inquietação desaparece. Em todos os outros aspectos, os pacientes  que estão no início desse distúrbio estão perfeitamente bem e em particular não sentem falta de ar (sensação totalmente diferente).  Quando  esse distúrbio perdura  por alguns meses, ele não cessará tão instantaneamente quando o paciente parar de andar e não virá somente quando as pessoas estiverem caminhando, mas também quando   estiverem deitadas,  obrigado-as a se levantar de suas camas todas as noites por vários  meses. Em um ou  dois casos relatados, os sintomas apareceram quando os pacientes andavam à cavalo ou de carruagem, e até mesmo quando as pessoas engoliam,  tossiam, iam  ao banheiro ou falavam, e também quando sentiam qualquer distúrbio da mente”.

Angina (ilustração de Frank Netter)

Paciente com angina (ilustração de Frank Netter)

Heberden também comentou a eventual influência das estações do ano na doença que descreveu: “um me contou que esse distúrbio no peito foi mais intenso no inverno; outro,  que  foi mais  agravado na estação quente: as outras estações não fizeram qualquer diferença.”   Em seguida,  informa sobre a possibilidade de ocorrer a morte súbita dos doentes; sobre a localização ser habitualmente da na zona esternal do tórax ( por isso o nome angina do peito);  e sobre o deslocamento dessa dor para o lado esquerdo do tórax e sua eventual propagação até a parte média do braço. Baseado em suas observações de que a freqüência do pulso não era sempre afetada durante os episódios de angina (um achado que naquela época inevitavelmente acompanhava as doenças cardíacas), Heberden atribuiu a provável causa desse desconforto ao coração. Ele também observou que a maioria dos pacientes acometidos eram masculinos, com sobrepeso, pescoço curto e  tinham mais de 50 anos.

Sua descrição impressiona pela clareza, precisão e expressiva sobriedade,  e  revela a alta competência do clínico e do emérito observador que foi Heberden. Seu texto tem sido admitido como um dos mais acurados da literatura médica. Ele não foi um ”cientista” na rígida acepção da palavra, mas sim um excelente clínico, dotado de uma exuberante capacidade de observar as características clínicas dos pacientes e de suas enfermidades, um atributo necessário ao bom desempenho de cada médico.

Heberden casou-se duas vezes. Do primeiro casamento, com Elizabeth Martin, em 1752, o teve um filho que morreu na primeira infância. Logo após o nascimento do segundo filho, Thomas (1754-1843), Elizabeth morreu. Seis anos depois,  casou-se com Mary Wollaston, com quem teve oito filhos, mas só dois sobreviveram:   Mary (1763-1832) e William Heberden- the Younger (1767-1845),  que seguiu a carreira do pai dentro da medicina e foi médico do Rei George III. William traduziu do latim para o inglês os escritos de seu pai.

Após aposentar-se do trabalho de suas atividades clínicas,  Heberden  passou os últimos 20 anos de  vida na sua casa de Pall Mall, colocando suas anotações em ordem para editá-las nos ”Comentários sobre a história e a cura das doenças, importante tratado médico escrito em lati. Morreu  em Pall Mall em 17 de maio de 1801, aos 91 anos.