Virginia Apgar

Virginia Apgar: pioneirismo na Neonatologia

 

Por Dr. Lauro Arruda Câmara Filho – Cardiologista

Virginia Apgar foi a mais nova de três irmãos, nascida em 7 de junho de 1909,  em Westfield, Nova Jersey, nos Estados Unidos. Seus pais eram músicos e a ensinaram a tocar vários instrumentos:  ela chegou a se apresentar com quartetos amadores. Nos anos 50, se interessou por luthieria, confeccionou violinos, violas e um violoncelo. Era uma entusiasta da jardinagem, gostava de pescar, jogar golfe e colecionar selos. Aos 50 anos, começou a ter aulas de pilotagem de aviões.

Fez seus estudos secundários na Westfield High School, graduando-se em 1925.  Ingressou no Mount Holyoke College, onde estudou Zoologia com bolsa de estudos, com habilitação em Fisiologia e Química. Em 1933, formou-se com a quarta melhor avaliação de sua turma de Medicina na Universidade de Columbia.  Em seguida, concluiu  sua residência em Cirurgia   no Hospital Presbiteriano de Nova York. O diretor-chefe de cirurgia, Dr. Alan Whipple, achava que a especialidade não era adequada para mulheres, já que outras médicas não tinham obtido sucesso na área, mas viu em Virginia Apgar  qualidades e inteligência para se dedicar ao estudo da anestesiologia,  que então tinha pouco prestígio entre os médicos.  Virginia, então, treinou na área de anestesia com o Dr. Ralph Waters, da Universidade de Wisconsin- Madison, e com o Dr. Ernest Rovenstine,  no Hospital Bellevue,  de Nova York , recebendo o certificado de anestesiologista em 1937. No ano seguinte, foi contratada como diretora da nova ala de anestesia.

Virginia Apgar foi a diretora e também o único membro da divisão de anestesiologia da Universidade de Columbia por anos, já que o baixo prestígio da especialidade e a  remuneração não atraiam  jovens médicos.  Somente em 1946  a anestesiologia começou a ser reconhecida como uma especialidade médica e a residência passou a ser necessária para praticá-la. Em 1949, quando esta área já recebia maior reconhecimento,  Dra. Virginia Apgar se tornou a primeira professora titular mulher da Universidade de Medicina de Columbia, onde permaneceu até 1959. Neste período, ela também fazia pesquisa na área médica em associação com o Hospital Sloane Para Mulheres, onde começou a estudar os efeitos da anestesia dada na mãe durante o parto e quais eram as consequências desta anestesia nas mães e nos bebês.

Em 1952, ela criou o Teste de Apgar. Este foi o primeiro método padronizado para avaliar a transição do recém-nascido para a vida fora do útero e marca o surgimento da Neonatologia, especialidade médica da área da pediatria que dedica-se à atenção ao recém-nascido, da sala de parto ao final do período neonatal (1º ao 28º dia de vida) . A Escala de Apgar é medida no primeiro e no quinto minuto após o nascimento. Nela é avaliada a condição do bebê, com pontuação de 0, 1 ou 2 para cada dos seguintes parâmetros: respiração, frequência cardíaca, tônus muscular, cor e resposta  reflexiva. A nota do teste de Apgar varia de 0 a 10. A pontuação de 8 a 10 ocorre em cerca de 90% dos recém-nascidos sadios  e  significa que o bebê  nasceu em ótimas condições. A nota 7 representa que houve uma leve dificuldade; já notas de 6 a 4 traduzem dificuldades de grau moderado; e de 0 a 3, dificuldade grave. Ao criar a Escala de Apgar, Virginia foi a primeira profissional da área médica a chamar a atenção para os problemas decorrentes do parto prematuro, um dos fatores de risco mais importantes para a mortalidade infantil.

  ESCALA DE APGAR

Pontos 0 1 2
A -Appearance (aparência ) Cor Cianótico/Pálido Cianose de extremidades Rosado
P – Pulse ( Pulso ) Freqüência cardíaca Ausente <100/minuto >100/minuto
G – grimace ( careta ) Irritabilidade Reflexa Ausente Algum movimento Espirros/Choro
A -Activity ( atividade ) Tônus muscular Flácido Flexão de pernas e braços Movimento ativo/Boa flexão
R – respiration ( respiração ) Respiração Ausente Fraca, irregular Forte/Choro

 

Em 1959, Virginia deixou Columbia e obteve o título de mestra em saúde pública pela Johns Hopkins School of Hygiene and Public Health. De 1959 até sua morte,  em 1974, Virginia Apgar trabalhou com a Fundação March of Dimes, uma organização sem fins lucrativos que visa melhorar a saúde de parturientes e seus recém-nascidos  e tem como uma das suas prioridades evitar o parto prematuro, cuja incidência é maior em populações de baixa renda socioeconômica e em pacientes que não recebem assistência pré-natal. Em várias conferências da March of Dimes para a juventude, falou sobre gravidez na adolescência e doenças congênitas, dois tópicos considerados tabus na época.

Virginia trabalhou ainda como  vice-presidente para assuntos médicos e diretora do programa de pesquisa para prevenir e tratar defeitos congênitos da Fundação Nacional de Paralisia Infantil.

Nos anos de 1964 e 1965, ocorreu uma epidemia de rubéola na Europa e Estados Unidos, seguida por uma onda de bebês nascidos com anomalias (estima-se que foram 12,5 milhões de casos da doença). Nesta época, Dra. Apgar  se tornou porta-voz da vacinação universal para prevenir a infecção.  A rubéola, quando contraída no primeiro trimestre de gestação, pode  causar abortos, prematuridade (menos de  37 semanas de idade gestacional), recém nascidos com baixo peso ( menos de 2,5kg) e malformação congênita de grandes órgãos e sistemas, como  nos olhos ( catarata,  microftalmia, retinopatia e  glaucoma), deficiência auditiva, no coração ( persistência do canal arterial, comunicação interatrial, comunicação interventricular, estenose ou hipoplasia da artéria pulmonar) e alterações neurológicas ( meningoencefalite e  retardo mental), púrpura, esplenomegalia, e osteopatia osteolúcida, dentre outros.  É possível  a ocorrência de formas tardias da rubéola congênita, que se manifestam como surdez parcial, pequenos defeitos cardíacos, diabetes mellitus  e pancreatite progressiva, só diagnosticados muitos anos após o nascimento.  Ela incentivou ainda o uso da classificação do Rh sanguíneo no exame pré-natal, para identificar incompatibilidades entre o sangue da mãe com o do feto, o que pode resultar em abortos ou hidropsia fetal.

Virginia viajava pelos Estados Unidos dando palestras sobre a importância da detecção precoce de defeitos congênitos e de mais pesquisas na área. Escreveu o livro “Is My Baby All Right?” (Está tudo bem com meu bebê?) com Joan Beck, em 1972. Foi também professora da Universidade Cornell, onde ensinou teratologia, que é o estudo dos defeitos congênitos em recém-nascidos.

Publicou cerca de 60 artigos, ensaios e textos em revistas, recebendo diversos prêmios e doutorados honorários, como os Woman’s Medical College of Pennsylvania (1964) e Mount Holyoke College (1965). Foi eleita a Mulher do Ano na Ciência pelo Ladies Home Journal em 1973. Acreditava que as mulheres mereciam mais oportunidades na ciência, especialmente na área médica.

Virginia Apgar nunca se casou ou teve filhos, tampouco se aposentou. Ela morreu devido à uma cirrose, em 7 de agosto de 1974, aos 65 anos, no Columbia University Medical Center, local onde treinou muitos médicos. Foi enterrada no Cemitério Fairview, em Westfield, Nova Jersey.