Luiz Venere Décourt: professor de didática humanista

Luiz Décourt

Luiz Décourt

Por:  Dr. Lauro Arruda Câmara Filho

Nasceu em  Campinas, SP, em 07 de dezembro de 1911, filho do professor Paulo Décourt e de Alzira Venere  Décourt. Começou a lecionar nos anos 30, ensinando biologia a alunos do Colégio Rio Branco, em São Paulo. Mais tarde, quando estava no último ano da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, passou a dar aulas particulares de clínica médica a colegas estudantes dos primeiros anos.

Após concluir o curso médico, obteve os títulos acadêmicos de Doutor em Medicina e de Professor Livre-Docente na mesma universidade. Foi professor titular de Clínica Cardiológica e Professor Catedrático de Clínica Médica da Universidade de São Paulo entre 1950 e 1981; um dos idealizadores do InCor e seu diretor científico entre os anos de 1978 e 1981.

Além de suas obrigações regulares na Faculdade de Medicina, manteve um Curso de Especialização em Cardiologia durante vinte anos e Curso de Pós-Graduação durante dez anos.  Foi um dos coordenadores do primeiro transplante de coração realizado no Brasil e o segundo no mundo. Foi ainda presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (1959-1960) e um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Nefrologia.

Autor dos livros:  Lições de patologia cardiocirculatória (1945), Biópsia do coração humano (1965), Doença reumática (1969) e Medicina preventiva em Cardiologia (1988); publicou ainda 324 artigos científicos em revistas nacionais e internacionais; proferiu 306 conferências científicas no Brasil e no exterior (Argentina, Bélgica, Equador, França, Itália, Peru e Venezuela); foi membro de 40 sociedades científicas nacionais e 21 estrangeiras e recebeu os títulos de Doutor “Honoris Causa” das Universidades de Coimbra, Rio Grande do Sul e Paraná. Recebeu também 34 prêmios de sociedades médicas e do governo. Dentre esses, destacam-se o Prêmio Alfred Jurzkwoski, da Academia Nacional de Medicina, o Prêmio Astra de Medicina e Cirurgia, o Prêmio Moinhos Santista em Ciências da Saúde, o Prêmio Professor Emérito e o Troféu Guerreiro da Educação-2000, oferecido pelo Centro de Integração Empresa-Escola do Estado de SP e pelo jornal Estado de SP.  Ao se aposentar, aos 70 anos, em 1981, recebeu o título de Professor Emérito da Universidade de São Paulo.

Médico extraordinário e com vasta experiência nos campos da clínica médica, pesquisa e produção científica, chegou cedo à posição de professor titular. Dotado de rara inteligência, sempre foi um estudioso disciplinado e um leitor voraz, que mantinha fichas pessoais dos artigos que lia, não apenas sobre medicina: são lendários seus profundos conhecimentos de música, matemática, história e artes em geral. Sempre valorizou a cultura geral, não como um luxo de intelectuais, mas como um instrumento valioso de comunicação entre os homens, de aproximação entre médico e pacientes.

Amparou os jovens, incentivando-os com seu entusiasmo e mostrando-lhes caminhos. Foi ao mesmo tempo disciplinador, compreensivo e sensível; intolerante com falácias e preconceitos, com a maldade e a ignorância. Acolhia a livre discussão de ideias e tinha enorme compreensão pelo ser humano, aceitando suas limitações e diferenças. Graças a essa grande capacidade de compreensão dos homens, foi um agregador, um formador de equipes. Pelo seu serviço de Cardiologia passaram 897 estagiários de todo o Brasil e da América Latina. Sempre procurava o lado bom das pessoas, e ajudou a muitos. Desde os tempos do Hospital das Clínicas cunhou a expressão “a mística da enfermaria“, para significar que a medicina  tem um cunho sacrossanto porque se dedica a preservar valores inalienáveis da pessoa humana, como a saúde e a vida.

Décourt teve três objetivos principais na vida profissional: a ciência, o ensino e a pessoa humana. Na ciência, estudou, escreveu livros e artigos, pesquisou e esteve sempre atualizado. No ensino, foi insuperável; para muitos, nosso maior didata. Como humanista, um defensor dos pobres, dos doentes e um pregador do respeito pela pessoa humana.

Suas qualidades o fizeram exemplo inesquecível e um líder com enorme contribuição para a cardiologia brasileira e da América Latina. Foi, sem dúvida, o cardiologista clínico mais influente de sua época. E o que deu credibilidade à liderança do Prof. Décourt foi a coerência de sua vida: ele pregou humanismo e foi caridoso; pregou amor pela ciência e sempre venerou o conhecimento e o progresso; pregou a necessidade de ensinar; ensinou com palavras e exemplos, mas sobretudo, inspirou seus alunos, como um verdadeiro mestre deve fazer.

Medicina, derivada do latim ars medicina, significa a arte da cura. A Medicina é a grande paixão do dia-a-dia e será a eterna companheira do médico vocacionado. Para se fazer Medicina é preciso ter curiosidade e compaixão. A curiosidade é inata no ser humano. A compaixão precisa ser ensinada ao estudante de medicina.  Compaixão é sentir, de alguma forma, aquilo que o outro está sentindo. É na compaixão que a ética se inicia e não nos livros de ética médica.

 

‘‘À vida do médico não se propõe recompensas, mas deveres.Creio na Medicina que, sendo uma técnica e um conhecimento, é também ato de solidariedade e de afeto; que é dádiva não apenas de ciência, mas ainda de tempo e de compreensão; que sabe ouvir com interesse, transmitindo ao enfermo a segurança de que sua narração é recebida como o fato mais importante desse momento. Medicina que é amparo para os que não têm amparo; que é certeza de apoio dentro da desorientação, do pânico ou da revolta que a doença traz. Creio na Medicina que é ato de resposta às necessidades da Pátria. Medicina lúcida e vigilante, atenta aos problemas nacionais e apta a intervir. Medicina responsável e solucionadora, que não aguarda o chamado da coletividade, mas procura atuar antes desse apelo. Nunca deformada por estreita visão do local em prejuízo do universal; nunca amesquinhada por demagogia ou por interesses pessoais; nunca aviltada por ideologias políticas corruptas e corruptoras.”  – Luiz Décourt.

 

O Professor Luiz Décourt faleceu no Incor, em São Paulo, dia 21 de maio de 2007, aos 95 anos.