JOSEPH LISTER

Por:  Dr. Lauro Arruda Câmara Filho

 

Nasceu em West Ham, Condado de Essex, na Inglaterra, em 5 de abril de 1827,  filho do enólogo e cientista amador Joseph Jackson Lister, pioneiro na produção de lentes acromáticas para microscópios, e de sua esposa, Isabella. O gosto de Lister pela ciência começou no pequeno laboratório do pai, onde usava o microscópio para investigar a natureza. Foi o primeiro da turma da escola em francês e alemão, tendo também sido bem sucedido em história natural, ciências e matemática.

Aos 17 anos, Lister ingressou na University College London. Inicialmente estudou botânica, obtendo um bacharelado em artes em 1847. Depois ingressou na  Faculdade Real de Cirurgiões,  formando-se com honras  aos 26 anos. Contraiu varíola nessa época, assim como seu irmão, John, mas se recuperou. Seu irmão sobreviveu à doença mas depois desenvolveu um tumor cerebral que lhe tirou a visão e os movimentos das pernas,  vindo a falecer em 1846, com apenas 23 anos. Após a morte do irmão, deprimido, Lister se questionou sobre sua vocação e passou um ano viajando pela Grã-Bretanha e depois pelo continente europeu. Em 1849, matriculou-se novamente na University College, voltando a se dedicar à cirurgia. Praticava suas habilidades no anfiteatro cirúrgico da instituição e, nas horas vagas, comprava peças anatômicas para estudar em casa. Alguns meses depois, foi oferecido a ele o cargo de auxiliar cirúrgico de John Eric Erichsen, cirurgião-sênior da universidade. Lister dava plantões noturnos no hospital e aproveitava as horas vagas para estudar.

Lister terminou sua residência médica com Dr. Erichsen em fevereiro de 1852 e aceitou a nomeação de assistente clínico no University College, período em que foi homenageado pelos membros do hospital por seu trabalho. No mesmo ano,  fez grandes contribuições à ciência ao usar seu microscópio para examinar a estrutura do olho humano, corroborando a hipótese de que a íris se compunha de fibras de musculatura lisa e que suas ações eram involuntárias, indo contra o que se achava na época.

Foi para Edimburgo, capital da Escócia, conhecer a inovadora técnica de amputação na articulação do tornozelo de James Syme, que permitia ao paciente a suportar o peso sobre o coto do tornozelo, dando-lhe uma maior mobilidade e independência do que nas técnicas de cirurgia anteriores.  Tornou-se assistente e amigo de Syme. Casou com a filha dele, Agnes, em 23 de abril de 1856.  O casal passou os três meses da lua de mel visitando hospitais na França e na Alemanha e Agnes se tornou uma importante assistente para os estudos de Lister.

Em 1860, assumiu a cátedra de cirurgia na Universidade de Glasgow e, em 1869, na de Edimburgo. Quando passou a trabalhar em Edimburgo, Lister já havia conseguido introduzir a técnica da assepsia com agentes químicos (ácido carbólico), reduzindo sensivelmente os óbitos pós-operatórios.  Lister começou a se interessar pela assepsia cirúrgica em 1857, quando publicou seu primeiro trabalho, Os Estádios Primários da Inflamação, uma análise de casos de piemia (septicemia geral na qual há focos secundários).  Lister sabia que o ácido carbólico era usado como antisséptico para limpar tesouras, e lançou a hipótese que teria efeito semelhante de prevenir doença em local cirúrgico, e aplicou a forma não diluída a uma lesão grave na perna de um jovem. A ferida do rapaz curou sem infecção, poupando-o de amputação, feito surpreendente para a época. O cirurgião foi alvo de muita zombaria por acreditar em germes “invisíveis”, mas seu sucesso acabou convencendo outros médicos de seus métodos.

Joseph Lister foi o primeiro cirurgião a esterilizar o categute (fio feito de intestino de animais  e usado em suturas desde os anos antes de Cristo). Lister passou a usar o categute carbólico e, em 1881, introduziu o categute crômico, primeiro material de sutura desenvolvido especificamente para uso cirúrgico. Até então, as cirurgias eram praticadas sem qualquer condição de higiene. Não havia troca de roupas entre um procedimento ou outro e era comum que os aventais estivessem imundos, com crostas secas de sangue e pus por cima. Acreditava-se ainda que as manchas de sangue e a “fedentina hospitalar” eram marcas de um bom exercício da profissão. Antes de Lister, médicos como Ignaz Semmelweis e Oliver Wendell Holmes já tinham pontuado a necessidade de se lavar feridas, as mãos e de se trocar com frequências bandagens e roupa de cama dos pacientes.

Enquanto era professor de cirurgia da Universidade de Glasgow, Lister entrou em contato com um artigo publicado pelo químico francês Louis Pasteur, que sugeria três métodos para eliminar os micro-organismos: filtração, exposição ao calor ou exposição a antissépticos. Assim, Lister se concentrou em encontrar um antisséptico eficaz para matar os micro-organismos sem causar danos ao paciente e orientava seus alunos e colegas a lavar as mãos antes das cirurgias com uma solução de ácido carbólico a 5%. Instrumentos cirúrgicos deveriam ser lavados com a mesma substância e o anfiteatro deveria ser desinfetado. Roupas deveriam ser trocadas e lavadas com frequência e feridas deveriam ser meticulosamente tratadas com a solução para evitar infecções.

Em 1871, Lister foi chamado às pressas ao leito da rainha Vitória, que finalmente tinha concordado em se deixar ser examinada por um cirurgião devido a um abscesso infectado na axila. A rainha aprovou os métodos do cirurgião, o que fez sua popularidade se espalhar. O  antisséptico Listerine, desenvolvido em 1879 e até hoje comercializado (primeiro como antisséptico cirúrgico e depois como enxaguante bucal) recebeu este nome em homenagem a Lister.  Suas descobertas e contribuições para a medicina e para a ciência levaram a rainha Vitória a criar um baronato para Lister em 1883, no Condado de Middlesex.  Lister foi presidente da Royal Society entre 1895 e 1900; em 1897, foi nomeado Barão Lister de Lyme Regis, no Condado de Dorset. Em 1899, o Instituto de Medicina Preventiva do Reino Unido passou a ser chamado de The Lister Institute of Preventive Medicine em sua homenagem. Lorde Lister foi apontado para a Ordem do Mérito em  junho de 1902 em honra à coroação de Eduardo VII, e em agosto do mesmo ano foi ordenado  cavaleiro da Coroa.

Joseph Lister morreu em 10 de fevereiro de 1912 , com quase 85 anos, em sua casa de campo em WalmerKent. Ele foi sepultado no Cemitério de Hampstead, em Fortune GreenLondres, depois de um funeral na Abadia de Westminster. Lister e a esposa Agnes não tiveram filhos. Depois de sua morte, um fundo foi criado, levando à criação da Medalha Lister, prestigiado prêmio oferecido a cirurgiões. Lister é um dos dois cirurgiões do Reino Unido que têm um monumento público em Londres (o outro é o cirurgião John Hunter), localizado em Portland PlaceMarylebone. Há também uma estátua de Lister em Kelvingrove Park,  em Glasgow, celebrando sua ligação com a cidade. Na mesma cidade, um edifício junto à Royal Infirmary, que abriga os departamentos de  citopatologiamicrobiologia e patologia,  foi nomeado em homenagem a Lister, assim como o Hospital Lister, em StevenageHertfordshire. Vários micro-organismos também foram nomeados em homenagem ao médico, como a bactéria Listeria monocytogenes.