Ivo Hélcio Jardim de Campos Pitanguy nasceu em Belo Horizonte, MG, em 5 de julho de 1926, filho de Maria Staël Jardim de Campos Pitanguy e do médico-cirurgião Antônio de Campos Pitanguy, professor na Santa Casa de Misericórdia. Cristãos com idéias libertárias,  estimularam nos filhos o gosto pela cultura . Pitanguy, que na língua tupi significa “rio das crianças”  foi atleta de natação no Minas Tênis Clube dos 10 aos 16 anos, onde  era colega de esporte do futuro escritor Fernando Sabino. “ Tive uma infância calma e doce, numa Belo Horizonte cheia de árvores, ruas largas e ar puro, numa casa com grande quintal com mangueiras e extensa biblioteca de livros sobre arte, filosofia e poesia.”

Fez o ginásio em Belo Horizonte, nos colégios Arnaldo e Affonso Arinos. Aos 16 anos,  decidiu ser médico – ainda jovem para entrar na faculdade, o pai o levava ao consultório para que acompanhasse as consultas e começasse a formação em anatomia, fisiologia e bioquímica. “Após me matricular na escola de medicina de Belo Horizonte, todos os dias eu saía das aulas e encontrava meu pai no hospital onde operava – aprendi com ele a distinguir os instrumentos cirúrgicos, assistia às cirurgias e realizava pequenas suturas… a primeira cirurgia que assisti foi de hérnia em uma senhora. Emocionado, vesti a roupa branca destinada à equipe cirúrgica, o odor de éter impregnava o ar, com aquele balé de mãos enluvadas manchadas de vermelho , senti meu próprio sangue fugir do rosto, não me senti bem, perdi a consciência…”

Cursou Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais até o quarto ano. O desejo de deixar a casa dos pais para conhecer outros mestres , experimentar a vida sozinho e viver pelos seus próprios meios, sem ferir sentimentos familiares, foi facilitado pela convocação para o serviço militar obrigatório. Como não havia regimento em Belo Horizonte do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), o  lugar mais próximo onde poderia conciliar os estudos da faculdade com o serviço militar era o Rio de Janeiro. Conseguiu transferência para  a Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, na Praia Vermelha, no Rio ( atual UFRJ), e ingressou no pelotão dos Dragões da Independência  no bairro de São Cristóvão, como segundo tenente de cavalaria, por ter pé chato.

Iniciou sua formação cirúrgica no Hospital do Pronto-Socorro do Rio de Janeiro, atual Hospital Souza Aguiar, como assistente interno,  complementada nos serviços dos professores George Grey, Josias de Freitas e Ugo Pinheiro Guimarães. Aprovado em um concurso organizado pelo Institute of International Education, conseguiu  uma bolsa de estudos de cirurgião residente do serviço do professor John Longacre, no Bethesda Hospital, em Cincinnati, Ohio,  nos EUA, onde o ensino era dado com disciplina de convento – o regulamento proibia até que o residente se casasse. Foi John Longare que incutiu no jovem aluno os ensinamentos sobre a importância da cirurgia reparadora e estética. Quando terminou o tempo do estágio no Bethesda, recebeu convite para permanecer como contratado, mas não aceitou,  pois deveria voltar ao Brasil para compartilhar os conhecimentos adquiridos com seu pares. Antes de voltar ao seu país, aproveitou os dólares economizados ao longo de dois anos para conhecer os mais importantes hospitais americanos. O Hospital Jonh Hopkins, em  Baltimore, maior centro de excelência em cirurgia geral na época,  a Mayo Clinic, em Minnesota, e o serviço de Cirurgia Plástica do doutor John Marquis Converse, em Nova York.

De volta ao Brasil, foi trabalhar no Hospital do Pronto-Socorro do Rio de Janeiro, no serviço de queimados, que ninguém queria. Por intermédio do médico legista Mário Rodrigues, diretor do necrotério da praça XV,  passou a dar aulas de anatomia e cirurgia a médicos em formação. Começou a operar no serviço de ortopedia do  prof. Henrique de Góes, na Santa Casa de Misericórdia, onde passou a divulgar junto às outras especialidades médicas os benefícios da cirurgia plástica. Um ano depois do início de sua atuação na Santa Casa, depois de um concurso de títulos, em 1949, o diretor anunciou que Pitanguy passaria a dirigir o primeiro serviço de cirurgia reparadora e da mão.

Nessa época, o Rio de Janeiro recebeu a visita do  professor Marc Iselin, considerado um dos fundadores da cirurgia de mão. Ao ver o talentoso Pitanguy operando em instalações hospitalares modestas, o convidou para ser seu  “assistente estrangeiro” em Paris, onde ficaria por dois anos, período em que visitou também os Serviços de Cirurgia Plástica dos Professores C. Dufourmentel e R. Mouly e do Professor Paul Tessier. “A experiência na França foi extremamente marcante e decisiva na minha formação médica e intelectual, foi a oportunidade de conhecer in loco a cultura que meus pais haviam cultivado e com que estava familiarizado graças às leituras com eles em nossa biblioteca”. Terminado o estágio na França, candidatou-se a uma bolsa de estudos do British Council, na Inglaterra – a intenção era aproveitar a estadia na Europa para conhecer os dois especialistas em cirurgia reparadora que haviam sido mestres de Jonh Longacre : Sir Harold Gillies, em Londres, considerado o fundador da cirurgia plástica moderna; e Sir Archibald McIndoe, primo de Gillies, no Queen Victoria Hospital, em East Grinstead. Além disso, queria conhecer o Professor Pomfret Kilner, no Churchill Hospital, em Oxford, que tinha grande experiência em cirurgia de lábio leporino e outras malformações congênitas.

Em 1955, casou-se com Marilu e no ano seguinte nasceu Ivo, o primeiro filho, em Munique, Alemanha, onde estava participando de um congresso médico. Os outros filhos são Gisela (médica psicoterapêutica), Helcius  e Bernardo (artista plástico).

Em 1960, já como cirurgião-chefe da  38ª enfermaria da Santa Casa, conquistou por concurso  a cátedra de cirurgia plástica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC) e mais tarde a do Instituto de Pós-Graduação Médica Carlos Chagas. O serviço da  Santa Casa atende a população menos favorecida, ressalta a importância social da cirurgia plástica, abolindo o  caráter elitista da especialidade,  e funciona como laboratório para pesquisa de técnicas cirúrgicas.

Em 17 de dezembro de 1961, com a colaboração dos médicos residentes, pôde tratar de forma abrangente as vítimas do grande incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói. Na tragédia, 372 mortes foram imediatas e,  nos dias seguintes, o número de vítimas fatais chegou a  500, sendo  70% delas crianças. O total de feridos chegou a 2 mil e 500  pessoas entre os 3 mil  espectadores.  O, acontecimento despertou a atenção de todos para a  importância social da cirurgia plástica, numa época em que a cirurgia reparadora e mais ainda a estética eram consideradas desprezíveis pela comunidade médica. As autoridades concluíram que foi um incêndio criminoso – um empregado do circo que tinha sido demitido, junto com dois comparsas, ateou fogo, com gasolina,  na lona do circo. Os três foram presos e o mentor foi assassinado após fugir da prisão. O incêndio de Niterói foi considerado a maior tragédia em recinto fechado do mundo, e, devido a falta de leitos nos hospitais,  o estádio de futebol Caio Martins foi transformado em local de atendimento aos feridos. O atendimento aos queimados perdurou por mais de seis meses.

A inauguração da Clínica Ivo Pitanguy,  em 1962,  e sua integração com a 38ª Enfermaria da Santa Casa permitiu estruturar a formação profissional e de ensino. A clínica tornou-se um centro de referência nacional e internacional da especialidade, tendo sido frequentada por cerca de 5 mil cirurgiões plásticos, entre fellows e visitantes. Sob sua orientação, na Clínica,  na Santa Casa e nos serviços associados, o curso de três anos de pós-graduação em cirurgia plástica pela Pontifício Universidade Católica do Rio de Janeiro,  criado em 1960,  já formou 500 cirurgiões plásticos de mais de 40 países. Em 1974, um grupo de ex-alunos, capitaneados por Ewaldo de Souza Pinto,  resolveu criar a Associação do Ex-alunos do prof. Ivo Pitanguy (AExIP), justificando a necessidade de manter contato com ex-colegas para continuar e aprofundar as discussões sobre técnicas, dificuldades e sucessos. O primeiro encontro internacional ocorreu em 1987, em Berlim, Alemanha. Foram vários ao redor do mundo: Atenas, Roma, Casablanca e Lisboa, que reuniram mais de quatrocentos ex-alunos de várias nacionalidades.

Em 1969 lhe foi concedida licença para operar na Clinique Génèrale de Sion, nos Alpes ,Suiça. Atuava com sua equipe de assistentes brasileiros durante dois meses por ano – essa experiência internacional perdurou por 15 anos. Por cerca de dois anos trabalhou em Roma, a convite  do Prof. Giancarelli, também em temporadas de dois meses por ano. Na França, recebeu a Légion d´Honneur, outorgada pelo presidente François Mitterrand, a Médaille Vermeil De La Ville de Paris e Chancelier dês Universités de Paris, além de ter sido homenageado com a cidadania de Nice e Marselha.

O conhecimento e a maturidade permitiram-lhe levar a experiência adquirida para todo Brasil e para várias partes do mundo através de mais de mil e  500 conferências, demonstrações cirúrgicas em encontros, seminários, simpósios e congressos internacionais. Organizou e ministrou inúmeros cursos de Cirurgia Plástica no Brasil e no exterior, destacando-se o 1º Curso de Extensão Universitária em Cirurgia Plástica, da então Universidade do Brasil, ministrado no anfiteatro da Clínica Ivo Pitanguy, unindo a iniciativa privada ao ensino público. Organizou o 1º Curso de Cirurgia da Mão, o 1º Curso de Cirurgia Plástica da Academia Nacional de Medicina; os Cursos da Universidade Camplutense de Madrid; o Curso de Cirurgia Plástica do XXIII World Congress of the International College of Surgeons, Universidade de Harvard e Universidade de Paris, entre outros.

Ivo Pitanguy é autor de mais de 900 trabalhos publicados em revistas do Brasil e do Exterior, Revista Brasileira de Cirurgia, Annales de Chirurgie Plastique, Revista Latino-Americana de Cirurgia Plástica, British Journal of Plastic Surgery, Plastic Reconstructive Surgery, Minerva Chirurgia, Acta Chirurgica Plástica, The International Microform Journal of Aesthetic Plastic Surgery, Aesthetic Plastic Surgery, Clinics in Plastic Surgery, Head and Neck Surgery, Ophtalmic Plastic Reconstructive Surgery, Zentralblatt fur Chirurgie. Foi ainda membro titular da Academia Nacional de Medicina desde 28 de junho de 1973, quando assumiu a cadeira número 67 e eleito para a Academia Brasileira de Letras,  em 11 de outubro de 1990.

Amante da natureza,  transformou sua Ilha dos Porcos Grande , em Angra dos Reis, litoral sul do RJ, num santuário ecológico licenciado pelo IBAMA. Praticou esportes e transmitiu a sua família o gosto pela prática de atividades físicas, como esqui aquático e na neve, caratê, natação , mergulho, equitação, tênis e pesca. Foi diretor do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro de 1975 a 1985 e tema do samba enredo da escola de samba Caprichosos de Pilares, no carnaval do Rio, em 1999. Em 5 de março de 1993, o prefeito de Indianápolis, EUA, Stephen Goldsmith, instituiu em cerimônia solene  o “Dia Dr. Ivo Pitanguy”  pelas técnicas cirúrgicas desenvolvidas, pela dedicação à pesquisa, pelo empenho na transmissão de  conhecimentos formando médicos do mundo todo e por melhorar a saúde e o bem estar do ser humano.

Pitanguy morreu em 6 de agosto de 2016, aos 90 anos, após sofrer uma parada cardíaca em casa. Sua última aparição pública foi no dia anterior à sua morte, carregando a chama olímpica dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

 

 

Entre os seus livros publicados, destacam-se:

  • Mamaplastias, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1976
  • Plastische Eingriffe nahe der Ohrmuschel, Stuttgart: Springer Thieme Verlag, 1976
  • Aesthetic Surgery of the Head and Body, Heidelberg: Springer Verlag, 1981 – premiado como o melhor livro científico do ano, na Feira Internacional do Livro de Frankfurt
  • Plastic Operations of the Auricle, New York: Springer Thieme Verlag, 1982
  • Les Chemins de la Beauté, Paris: Editions J.C. Lattés, 1983
  • El Arte de la Belleza, Barcelona: Ediciones Grijabo, 1984
  • Direito à Beleza, Rio de Janeiro: Editora Record, 1984
  • Angra dos Reis: Baía dos Reis Magos, São Paulo: Marprint Ind., 1986
  • Um jeito de ver o Rio, Projeto Cultura Clínica Ivo Pitanguy, 1991
  • Aprendendo com a Vida, São Paulo: Editora Best Seller, 1993
  • Atlas da Cirurgia Palpebral, Rio de Janeiro: Colina/Revinter, 1994
  • Imparando con La Vita – Milano: Mediamix Edizione Scientifiche, 1996
  • Chirurgia Estetica – Strategie preoporeative – Tcheniche cirurgiche. Toronto: UTET,1997; 2 Volumes
  • Cirurgia Estética – Estratégia preoperatória – Técnicas Cirúrgias – Cara y Cuerpo:  Caracas: Actualidades Médico Odontológicas Latinoamericana, 1999
  • Ivo Pitanguy: Arte, Beleza e Corpo. NIGRI, André Luis. Direito e Medicina, um estudo interdisciplinar, Rio de Janeiro, 2007
  • Ivo Pitanguy – Aprendiz do Tempo – Historias Vividas – Rio de Janeiro, 2007
  • Ivo Pitanguy –  Cartas a um Jovem Cirurgião – Rio de Janeiro, 2009
  • Ivo Pitanguy – Viver vale a pena – Rio de Janeiro, 2014

Títulos honoríficos e prêmios

 

Por:   Dr. Lauro Arruda Câmara Filho