Ignaz Semmelweis: precursor da antissepsia

Por:  Dr. Lauro Arruda Câmara Filho

 

 

Criei esses procedimentos para eliminar o terror das maternidades, para manter a esposa viva para o marido e a mãe para o filho.” — Ignaz Semmelweis

 

Ignaz Philipp Semmelweis  nasceu em 1º de julho de 1818 em Buda, hoje parte de Budapeste,  Hungria, de família de  origem germânica. Iniciou os estudos universitários no curso de Direito  na Universidade de Viena, em 1837. No ano seguinte, mudou para a Faculdade de Medicina, graduando-se em 1844. Em seguida,  decidiu se especializar em obstetrícia, sendo nomeado assistente na primeira clínica de Obstetrícia do Hospital Geral de Viena, na Áustria.

Chamou a atenção de Semmelweis o fato da mortalidade materna pela febre puerperal (pós-parto) ser em torno de dez por cento na primeira clínica obstétrica, enquanto na segunda clínica a mortalidade era de quatro por cento. A população de Viena sabia da má reputação da primeira clínica e não aceitava internação lá, preferindo o parto em casa ou mesmo na rua. Semmelweis observou o funcionamento das duas clínicas e unificou todos os procedimentos e comportamentos:  posição da mobília, mesma técnica obstétrica, manter as janelas fechadas – até os serviços religiosos passaram a ser exatamente iguais. A grande diferença encontrada era nas pessoas que davam assistência aos partos nas clínicas: enquanto na segunda clínica (de mortalidade pós-parto menor) eram as parteiras a assistir aos partos, na primeira clínica eram os estudantes de medicina que assistiam aos partos – era lá que funcionava a prática obstétrica dos estudantes.

Em 1847, seu grande amigo Jakob Kolletschka foi acidentalmente ferido pelo bisturi de um aluno durante uma necropsia e, segundo as observações do médico, “contraiu linfangite, peritonite e meningite e  teve metástase num globo ocular” . O amigo faleceu e seu quadro clínico e o exame post mortem mostraram aspectos semelhantes aos exames das mulheres que morriam da febre puerperal. Isso fez Semmelweis associar a contaminação cadavérica com a febre puerperal, concluindo que os médicos e os estudantes carregavam “partículas cadavéricas” em suas mãos das necropsias para as salas de parto, enquanto as parteiras não tinham contato com os cadáveres ou necropsias. Ele instituiu então a prática de lavagem de mãos para médicos e estudantes de medicina com solução de cal clorada (hipoclorito cálcico) antes dos partos. O resultado desta prática foi a queda nos índices de mortalidade materna:  a taxa, que era de 18,3 por cento no mês de abril de 1847, caiu para próximo de dois por cento no mês seguinte, assemelhando-se às estatísticas da segunda clínica obstétrica. Mas apesar dos bons resultados, as condutas de Semmelweis foram contestadas e rejeitadas por seus superiores: houve preconceito por conta da sua nacionalidade húngara, conflito com a opinião estabelecida e ele terminou sendo demitido por motivos políticos, pois defendia a independência de seu país, Hungria, do império austríaco.

Semmelweis retornou para a Hungria onde, em 20 de maio de 1851, assumiu o cargo de médico honorário, de pouco prestígio e não remunerado, na enfermaria obstétrica do pequeno Hospital Szent Rókus (São Roque), em Budapeste. Depois deu aulas na maternidade de Budapeste, onde a febre puerperal era costumava ser frequente mas foi praticamente eliminada depois das práticas preconizadas por ele.

Em 1857, casou-se com Maria Weidenhofer, com quem teve cinco filhos. No mesmo ano em que casou, o médico recusou um convite para ser professor da Universidade de Zurique, na Suiça. Em 1861 publicou o resultado de seu trabalho no livro “ Etiologia, conceito e profilaxia da febre puerperal”.

As teorias de Semmelweis, no entanto, eram muito criticadas e seus colegas médicos relutavam em adotar seus métodos de prevenção de infecções, o que o tornou irritado e agressivo –  Semmelweis chegou a acusar muitos profissionais proeminentes na Europa de serem responsáveis por assassinato nos partos. A própria esposa e alguns amigos achavam que ele estava com desequilíbrio mental, e, a pretexto de visitar um novo instituto médico, o levaram para um asilo de doentes psiquiátricos. Quando ele percebeu que estava sendo internado, tentou sair, mas foi contido com violência, submetido a camisa de força e colocado numa cela escura. Duas semanas depois, em 13 de agosto de 1865, morreu aos 47 anos, vítima de uma infecção no dedo médio da mão direita, que gangrenou.

A hipótese de Semmelweis foi reconhecida anos depois de sua morte, quando o químico francês Louis Pasteur (1822–1895) desenvolveu a teoria dos germes das doenças, revolucionando o combate às infecções – Pasteur confirmou, com suas experiências científicas, as observações de Semmelweis, assim como o cirurgião e pesquisador britânico Joseph Lister (1827-1912), considerado o “pai” da cirurgia moderna por ter desenvolvido as técnicas de antissepsia em cirurgias.

Como reconhecimento tardio ao trabalho desenvolvido por Semmelweis, em 1894 foi erguido um monumento em sua homenagem, na cidade de Budapeste.