Giovanni Borromeo e  a história da “doença” que salvou muitas vidas (Síndrome K)

Por:  Dr. Lauro Arruda Câmara Filho

Nasceu em Roma, em 15 de dezembro de 1898, filho do bem conceituado médico Pietro Borromeo. Quando estudava medicina na Universidade de Roma,  foi convocado para participar da I Guerra Mundial, tendo ganho uma medalha de bronze no seu retorno. Formou-se em medicina aos 22 anos. Em 1931,  foi nomeado diretor  dos “Hospitais Unidos de Roma” , mas foi demitido, suspeita-se, por não ser membro filiado ao partido fascista. Em 2 de dezembro de 1933, Borromeo casou-se com Maria Adelaide Mangani, com quem teve três filhos : Beatrice (1934), Pietro (1937) e Maria Cristina (1943).

Em 1934, Borromeo foi nomeado diretor do Hospital Fatebenefratelli  da Ilha Tiberina, da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, no centro de Roma. Ele e o Prior Maurizio Bialek continuaram as reformas iniciadas nas gestões anteriores e transformaram um antigo hospício em uma moderna e eficiente estrutura. Entre os membros de corpo clínico do hospital, dois jovens médicos estavam em situação delicada: Vittorio Emanuele Sacerdoti, sobrinho do mestre em fisiopatologia Marco Almagià, por ser judeu; e Adriano Ossicini, um católico militante antifascista, perseguido pela polícia política.

Durante a ocupação nazista de Roma, depois do armistício de Cassibile,  em  1943, médicos do Hospital Fatebenefratelli  passaram a prestar assistência médica secreta aos perseguidos do regime: desertores, carabineiros fugitivos, membros da resistência antifascista, judeus e outros. Durante os nove meses de ocupação a cidade sofreu desabastecimento de alimentos e assistiu à perseguição e prisão de mais de mil judeus, que foram transportados para campos de concentração em Fossoli  di Carpi e Auschwitz.

Nesta época, a tuberculose era uma das principais causas de mortes em todo mundo,  acometia principalmente as classes mais pobres e fazia vítimas de todas as idades.  Foi quando um grupo de judeus foi internado no Hospital Fatebenefratelli, com um  falso diagnóstico:  eles seriam portadores da Síndrome  K (tuberculose que seria altamente contagiosa e desfigurante). A síndrome, que na verdade  não existia, foi inventada por médicos do hospital. Para diferenciar os judeus lá internados dos verdadeiros doentes, os médicos usavam entre eles, como código, a letra K ( em referência ao comandante alemão Albert Kesselring e a Herbert Kappler, chefe da polícia nazista de Roma).  Os guardas nazistas não visitavam a ala dos “portadores” da ‘Síndrome K” com medo de contaminação por essa devastadora doença, que seria, segundo os médicos, muito contagiosa e quase sempre mortal, e deixavam em paz os falsos doentes lá internados.

Borromeo não é citado por historiadores como membro da resistência antifascista, nem demonstrava publicamente suas opiniões políticas, mas como diretor do hospital acobertava os atendimentos clandestinos, as internações da doença “ K” e mantinha uma rádio clandestina no porão do hospital para manter contato com os partisans (membros da resistência italiana).

Católico praticante, Borromeo tinha fortes ligações com o Vaticano e depois da guerra entrou para o Partido Democrático Cristão Italiano. Era amigo de Alcide de Gasperi  primeiro ministro  entre 1945 e 1953) e  foi conselheiro de saúde pública da municipalidade de Roma. Foi agraciado com a medalha de  prata Valor Civil.

Quarenta e três anos após sua morte,  foi reconhecido como “Justo entre as Nações” pelo Yed Vashem de Israel, memorial oficial para as vítimas do hocausto, por ter salvo a família judia de seu mentor Marco Almagià . O filme “My Italian Secret”   aborda episódios da resistência italiana ao nazi-fascismo.

Borromeo faleceu no Hospital Fatebenefratelli, em 24 de agosto de 1961, aos 62 anos.