FORREST BIRD: O piloto inventor do respirador artificial

Por Dr. Lauro Arruda Câmara Filho

Forrest Morton Bird nasceu em Stoughton, Massachusetts, nos Estados Unidos, em 9 de junho de 1921. Estimulado pelo pai, piloto da força aérea norte americana na I Guerra Mundial, e pela admiração por Orville Wright, desde cedo interessou-se pela aviação . Em 1935, graduou-se no ensino secundário pela Stoughton High School . Seu primeiro vôo solo foi aos 14 anos, no avião Waco GXE, de seu pai. Aos 16 anos, já tinha o brevê de piloto. Ingressou na força aérea americana em 1941, aos 20 anos. Pelas boas notas no curso de piloto, foi classificado para a equipe de treinamento dos demais pilotos e também para aprimorar tecnicamente os equipamentos de vôo. Na Boston’s Northeastern University, estudou engenharia aeroespacial.

Durante a II Guerra Mundial,  teve a oportunidade de pilotar vários modelos de aviões, inclusive jatos e helicópteros. Por volta de 1941, os aviões americanos alcançavam uma altitude de vôo de até 28 mil pés, enquanto os aviões alemães voavam a 35 mil pés. Auxiliado por um time de cientistas da Escola de Medicina da Aviação do Texas, Bird desenvolveu um equipamento regulador de oxigênio com pressão positiva que permitiu alcançar altitudes de 37 mil pés sem causar problemas respiratórios nos pilotos. Ele chegou a estudar medicina em diversas universidades, porém sem concluir o curso – seu interesse no estudo era para “entender o corpo humano e seu estresse no vôo”. O sucesso na aviação do regulador de oxigênio com compressão positiva encorajou Bird a prosseguir nos estudos da fisiologia respiratória, onde descobriu semelhanças entre o perfil aerodinâmico do fluxo de ar no pulmão humano e o movimento do ar pelas asas do avião durante o vôo.

Suas pesquisas culminaram com a criação de um aparelho de assistência respiratória. Isso permitiu a produção em massa de um aparelho portátil e menos incômodo que os pulmões de aço que eram utilizados até então. Em 1954, ele criou a Bird Products Corporation e trabalhou em novos protótipos, e dois anos depois lançou comercialmente o respirador Bird Mark 7, conhecido como o respirador dos anos 1970: uma pequena caixa de plástico verde, leve ( 2,7kg), alimentada por ar comprimido, que podia liberar medicamentos na fórmula de aerossol e assistir a respiração de pacientes gravemente comprometidos. Um dos motivos da obstinação de Bird nos estudos da assistência respiratória teve um cunho pessoal. No início dos anos 1960, sua esposa Mary foi diagnosticada com um avançado enfisema pulmonar, e apesar do suporte dos primeiros modelos de respiradores, seu quadro clínico continuava a piorar. Em 1978, em associação com a Minnesota Mining and Manufacturing Company Forrest Bird dedicou-se ao desenvolvimento de um modelo de respirador que chamou de Ventilação Percussiva Intrapulmonar (VPI), que mandava pulsos de ar no pulmão do paciente e deslocava os fluidos e muco do trato respiratório. A primeira geração de modelos VPI entrou em produção em 1983, promovendo eficiência nos cuidados emergenciais nos grandes queimados, nos portadores de fibrose cística, bronquite e enfisema pulmonar. Para sua esposa Mary, no entanto, o período de remissão foi pequeno, já que seus pulmões estavam severamente comprometidos – ela faleceu em 1986.

Os mecanismo de válvulas dos respiradores Bird tornaram mais simples e mais eficientes os equipamentos de anestesia. O respirador Bird Mark 9 foi utilizado até por veterinários em animais de grande porte, como os elefantes, tal a sua potência. Outros modelos de respiradores foram adaptados para serem usados em helicópteros de guerra em evacuações, baseados na própria experiência de Forrest Bird como piloto no resgate de soldados feridos na guerra da Coréia. As invenções de Bird transformaram os cuidados em pacientes críticos durante o conflito no Vietnã, permitindo que os feridos fossem atendidos já no momento que eram retirados do campo de batalha. Em 1970, Bird lançou um respirador para crianças com baixo peso no nascimento, denominado “Baby Bird” , que, em dez anos de comercialização,  reduziu de 70 por cento para dez por cento a mortalidade infantil por doenças respiratórias, enquanto que o modelo Bird Mark 7 transformou-se no padrão de assistência respiratória nos hospitais de todo o mundo. Bird também colaborou no desenvolvimento de reguladores de pressão dos trajes anti-G, para prevenir desmaios em pilotos submetidos a grandes pressões de aceleração e altas velocidades.

Após vender a Bird Corporation, Forrest Bird mudou-se para Sagle, Idaho (próximo à fronteira com o Canadá),  onde continuou trabalhando e colaborando no desenvolvimento de novos respiradores. Em 2007, na companhia de sua terceira esposa, Dra. Pamela Riddle*, construiu um museu (Bird Aviation Museum e Invention Center) para seus inventos, aviões, helicópteros, motocicletas e carros. Promovia também a aviação, com apresentações de acrobacia, e criou uma escola para pilotos.

Seus títulos da educação superior formal só vieram depois do reconhecimento como inventor: em 1977, recebeu o título de Doutor em Aeronáutica pela Northrop University in Inglewood e, em 1979, o título de Doutor em Medicina pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas/SP. Em 1995, entrou para Hall da Fama dos Inventores. Bird foi duas vezes agraciado com Lifetime Scientific Achievement Award, em 1985 e 2005. O inventor foi ainda condecorado pelos presidentes norte-americanos George W. Blush (em 2005, com a Presidential Citizens Medal Forrest) e Barak Obama (em 2009, com a Medalha Nacional de Tecnologia e Inovação).

Bird faleceu em 02  de agosto de 2015, de causas naturais, em sua casa, cercado dos familiares, aos 94 anos .

*Dois meses depois do falecimento de seu marido Forrest Bird, Pamela Ridle Bird morreu,  em 8 de outubro de 2015, vítima de um acidente aéreo em Cabinet Mountains, próximo a Hope, Idaho/EUA, aos 59 anos.