Alois Alzheimer nasceu no dia 14 de Junho do ano 1864, na cidade alemã de Markbreit, Baviera. A casa em que nasceu foi restaurada em 1995 e transformada em um museu e um importante centro de convenções. A infância de Alois foi tranquila, com seus cinco irmãos. Em 1874, foi morar com um tio em Aschaffenburg, onde concluiu ensino médio. Na escola, já se destacava quando o assunto era ciência. Em sua avaliação final (1883), veio a observação: “Este candidato demonstrou conhecimento excepcional em ciências naturais, assunto pelo qual mostrou particular preferência durante seus anos de estudo”. Assim que terminou o ensino médio, teve uma grande perda: sua mãe faleceu. Nessa época, iniciou o curso de Medicina na Universidade Real Friedrich Wilhelm, de Berlim. No segundo ano, mudou-se para Würzburg, onde terminou a faculdade. Em 1888, Alzheimer defendeu a tese intitulada “Sobre as glândulas ceruminosas do ouvido” sob orientação de Rudolf Albert von Kolliker (1817-1905), lembrado hoje por suas grandes contribuições para a histologia, a ciência que estuda tecidos e células.

Assim que se formou, foi trabalhar em Frankfurt como médico assistente no Hospital de Lunáticos e Epiléticos, então dirigido por Emil Sioli (1852-1922), entusiasta das idéias de Philippe Pinel (1745-1826) e de Jean-Marie Charcot (1825-1893). Ali encontrou o já famoso neuropatologista Franz Nissl (1860-1919), criador de uma técnica de análise histológica de neurônios: o método de Nissl. Os estudos de Sioli, Alzheimer e Nissl transformaram a instituição em um sanatório de prestígio, dando início a pesquisas científicas de alto nível baseadas na análise do cérebro de pacientes, relacionando sintomas com as alterações anatomopatológicas.

Casou-se em 1894 com a viúva Cecilie Simonette Nathalie Geisenheimer, com quem teve três filhos.
Cuidadoso e detalhista, Alzheimer ficou conhecido pela habilidade com que descrevia os achados microscópicos. Dedicava as manhãs ao atendimento aos doentes e passava as tardes no laboratório analisando lâminas de tecido cerebral obtido nas necropsias. Em parceria com Nissl, realizou um extenso mapeamento das doenças do sistema nervoso conhecidas na época, trabalho que deu origem ao tratado de seis volumes intitulado Estudos histológicos e histopatológicos do córtex cerebral, publicados entre 1906 e 1918. Além de contribuir decisivamente para a neurobiologia do envelhecimento, Alzheimer se dedicou ao estudo da epilepsia, do alcoolismo e da arteriosclerose cerebral e à psiquiatria forense.

No dia 25 de novembro de 1901 , a Sra. August Deter, 51 anos, que sempre fora uma mulher saudável, educada e um pouco tímida, foi internada no Hospital Municipal. Seu marido contou que os problemas haviam começado seis meses antes com uma súbita e escandalosa crise de ciúme seguida de perda progressiva da memória. Aos poucos August foi se tornando ansiosa e hostil. Alzheimer acompanhou de perto o caso dessa paciente até 1903, quando se mudou para Heidelberg a convite de Emil Kraepelin (1856-1926), considerado o fundador da psiquiatria moderna.

Poucos meses depois, ambos se transferiram para a Clínica Psiquiátrica Real, em Munique, hoje Instituto Max-Planck de Psiquiatria. Com a morte da Sra August Deter, em abril de 1906, Sioli enviou o cérebro e o prontuário dela para que Alzheimer os examinasse. Este caso de doença do córtex cerebral foi apresentado no 37º Encontro de Psiquiatras – a platéia presente, porém, recebeu os achados com pouco interesse, com frieza e cautela.

As lâminas do cérebro de August Deter foram reanalisadas por alguns pesquisadores nos anos seguintes, e estes confirmaram o acúmulo de uma substância incomum no córtex cerebral − hoje conhecida como proteína betaamilóide. O caso de um segundo paciente, Johann F., aparentemente portador da mesma anomalia, foi descrito por Alzheimer em 1910. Convencido de que realmente estavam diante de uma nova patologia, no mesmo ano Kraepelin introduziu o termo Doença de Alzheimer na oitava edição do seu Tratado de psiquiatria. Houve, entretanto, quem o criticasse pela pressa com que criara o novo epônimo − o que era de certa forma plausível. O homem que identificou a esquizofrenia e a psicose maníaco-depressiva foi também um político hábil e ferrenho opositor às idéias de Sigmund Freud (1856-1939), que floresciam não muito longe dali, em Viena. É provável que, além das motivações científicas, Kraepelin desejasse com isso promover seu laboratório e, para se contrapor à teoria psicanalítica de Freud, reafirmar a importância dos mecanismos biológicos subjacentes a alguns quadros psiquiátricos.

Em 1912, Alzheimer aceitou o convite do rei da Prússia Guilherme II para dirigir a Clínica de Psiquiatria e Neurologia da Universidade Silesiana Friedrich-Wilhelm, em Breslau ( hoje Wroclaw , Polônia). Na viagem de trem contraiu uma grave amidalite, que evoluiu para artrite, problemas cardíacos e renais. Nunca mais recuperou a saúde e passou os anos seguintes na cama, até morrer em 19 de dezembro de 1915, aos 51 anos.

Houve controvérsia entre médicos e pesquisadores, pois para muitos deles Alzheimer cometera equívocos, e as lesões descritas no início do século XX na verdade corresponderiam a outras doenças já conhecidas, como a demência vascular. A polêmica só foi realmente resolvida na década de 1990, graças ao notável trabalho investigativo do neuropatologista Manuel Graeber, do Instituto Max-Planck de Neurobiologia. Ele encontrou as preparações histológicas do cérebro de August Deter e de Johann F., até então esquecidas nos porões da Universidade de Munique. Ao todo, são mais de 400 lâminas em ótimo estado de conservação, além de outros documentos que descrevem a história clínica desses pacientes.

A doença de Alzheimer é hoje a forma mais comum de demência e um dos distúrbios mentais que mais concentram esforços de pesquisa, além da preocupação de profissionais da saúde, das famílias e da mídia.

(Por:  Dr. Lauro Arruda Câmara Filho – Cardiologista)