Irena Krzyzanowski Sendler nasceu em 15 de fevereiro de 1910,  em Otwock, próximo a Varsóvia, Polônia, à época sob domínio russo.  Filha única do casal Krzyzanowski, de fé católica. A mãe chamava-se Janina  e o pai Stanislaw. Ele era médico com grande clientela e entre seus pacientes havia vários judeus, muito dos quais sem recursos, que ele atendia gratuitamente. Stanislaw não cansava de ensinar à pequena Irena que o ato de ajudar devia ser para todo ser humano uma necessidade que emanasse do coração, não importando se o indivíduo a ser ajudado era rico ou pobre, nem a que religião ou nacionalidade pertencia. Em 1917, a cidade de Otwock foi tomada por uma epidemia de tifo e Stanislaw contaminou-se no seu trabalho, adoecendo  gravemente. Antes de morrer, fez uma última recomendação à filha,  para que ela sempre ajudasse  os mais necessitados:  “Se vires alguém se afogando, deves pular na água e tentar ajudar, mesmo se não souberes nadar“.

Na juventude,  Irena  estudou literatura polonesa e se filiou ao Partido Socialista. Na década de 1930,  foi suspensa por três anos da Universidade de Varsóvia por contestar um professor que discriminava os alunos judeus, obrigando-os a se sentar em local separado na classe. A jovem foi para o “setor judaico” da sala e quando o professor lhe disse para mudar de lugar, respondeu: “Hoje sou judia“.

Em 1931, casou-se  com Mieczyslaw Sendler, com o qual não teve filhos. divorciando-se em 1947. Casou-se pela segunda vez em 1947 com Stefan Zgrzembski, um colega judeu de faculdade com quem teve três filhos: Janina, Andrzez (morto na infância) e Adam (morto de insuficiência cardíaca em 1999). Divorciou-se de  Zgrzembiski em 1959 e em 1960 casou-se  novamente com seu primeiro marido, Miesczslaw.

Quando os alemães invadiram a Polônia, em setembro de 1939, ela trabalhava no Departamento de Bem-estar Social de Varsóvia, única organização oficial polonesa autorizada a atuar no país além da Cruz Vermelha. Irena era responsável pela administração dos refeitórios comunitários localizados em cada distrito da cidade, que distribuíam, além de alimentos, roupas, medicamentos e algum dinheiro. Quando se tornou proibido atender aos judeus, ela registrou àqueles que iam pedir ajuda com nomes cristãos, fictícios. Para evitar visitas de inspeção, colocava nas fichas que na família havia doença infecciosa, como tifo ou tuberculose. Trabalhou incansavelmente para aliviar o sofrimento de milhares de pessoas, tanto judias como católicas.

Em 1942, os nazistas criaram o gueto em Varsóvia, e Irena, horrorizada pelas condições em que ali se sobrevivia, uniu-se ao Conselho para a Ajuda aos Judeus, Zegota. Ela conseguiu documentos junto ao gabinete sanitário para atuar como  enfermeira – essa concessão dos alemães foi motivada pelo medo de  disseminação das doenças contagiosas. Quando Irena caminhava pelas ruas do gueto, levava uma braçadeira com a estrela de David, como sinal de solidariedade e para não chamar a atenção sobre si própria. Pôs-se rapidamente em contacto com famílias, a quem propôs levar os seus filhos para fora do gueto, mas não lhes podia dar garantias de êxito, pois sua própria vida corria riscos. Eram momentos extremamente difíceis, quando devia convencer  aos pais  que lhe entregassem os seus filhos, pois a  única certeza era a de que as crianças morreriam se permanecessem lá.  Ao longo de um ano e meio, até à evacuação do gueto, no verão de 1942, conseguiu com seus colegas resgatar mais de 2 mil e 500 crianças por várias vias. Começou a recolhê-las em ambulâncias como se fossem vítimas de tifo, mas também  se valia de todo o tipo de subterfúgios que servissem para as esconder: sacos, cestos de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacos de batatas, caixões de defunto. Quando resgatava as crianças do gueto estava acompanhada de seu cachorro, que era treinado para latir na presença dos guardas e abafar algum barulho emitido pelas crianças,  que eram acolhidas em orfanatos católicos e por famílias polonesas que lhes ensinavam o idioma polonês, orações e canções católicas, para despistar sua origem judia. Irena queria que depois da guerra pudessem recuperar os seus verdadeiros nomes, as suas identidades, as suas histórias pessoais e as suas famílias. Registrava os nomes e dados das crianças e as suas novas identidades, guardava em jarras de vidro que enterrava no quintal de uma amiga, para se assegurar que chegariam às mãos indicadas caso ela morresse. Ao acabar a guerra, Irena desenterrou-os e entregou as anotações a Adolfo Berman, o primeiro presidente do Comitê de Salvação dos judeus sobreviventes.  Lamentavelmente, a maior parte das famílias das crianças tinha sido morta nos campos de extermínio nazistas, notadamente em Treblinka.  Esses pequenos sobreviventes dos orfanatos foram acolhidos por famílias adotivas e por instituições judias para órfãos em Israel.

Os nazistas souberam dessas atividades de Irena e em 20 de outubro de 1943, ela foi presa pela Gestapo e levada para a prisão de Pawiak,  onde foi brutalmente torturada. Num colchão de palha encontrou uma pequena estampa de Jesus Misericordioso com a inscrição: “Jesus, em Vós confio”, e conservou-a consigo até 1979, quando a ofereceu ao Papa João Paulo II, seu conterrâneo polonês.

Ela, a única que sabia os nomes e moradas das famílias que albergavam crianças judias, suportou a tortura e negou-se a trair seus colaboradores ou as crianças ocultas. Quebraram-lhe os ossos dos pés e das pernas, mas não conseguiram quebrar a sua determinação. Foi condenada à morte por fuzilamento. Enquanto esperava pela execução, um soldado alemão levou-a para um “interrogatório adicional”. Ao sair, gritou-lhe em polonês “Corra!”.

No dia seguinte, Irena encontrou o nome dela na lista de poloneses que tinham sido executados. Os membros da Żegota ( organização clandestina da resistência polonesa, criada para ajudar aos judeus e que atuou na Polônia ocupada pelos alemães entre os anos de 1942 a 1945) tinham conseguido deter sua execução subornando os guardas alemães. Usando uma nova identidade, Irena continuou a trabalhar como enfermeira em um hospital público de Varsóvia até a retirada das tropas alemãs da Polônia.

As crianças só conheciam Irena pelo seu codinome “Jolanta”. Mas anos depois, quando a sua fotografia saiu num jornal depois de ser premiada pelas suas ações humanitárias durante a guerra, um homem chamou-a por telefone  e disse-lhe:

“ Lembro-me de seu rosto. Foi você quem me tirou do gueto”

E assim começou a receber muitas chamadas e reconhecimentos públicos.

Em 1965, a organização Yad Vashem,  de Jerusalém, outorgou-lhe o título de Justa entre as Nações, título reservado aos não judeus que salvaram judeus,  e nomeou-a cidadã honorária de Israel. Porém, por proibição das autoridades comunistas, não pode comparecer à solenidade e somente em 1983  pode viajar para ser homenageada.

Em 1999, alunos da secundaristas de Uniontown, Kansas(EUA), encenaram a peça “A vida no jarro”  sobre a vida de Irena Sendler. A peça foi um sucesso,  com centenas de apresentações, o  que tornou a história de sua vida conhecida no mundo.

Em Novembro de 2003,  o presidente da República Aleksander Kwaśniewski, concedeu-lhe a mais alta distinção civil da Polônia: a Ordem da Águia Branca. Irena foi acompanhada pelos seus familiares e por Elżbieta Ficowska, uma das crianças que salvou.

Irena Sendler foi apresentada como candidata para o prémio Nobel da Paz em 2007 pelo governo polonês. Esta iniciativa pertenceu ao presidente Lech Kaczyński e contou com o apoio oficial do Estado de Israel através do primeiro-ministro Ehud Olmert e da Organização de Sobreviventes do Holocausto residentes em Israel. O premio, no entanto, foi dado ao então vice-presidente norte-americano Al Gore,  por sua defesa do meio-ambiente.

Em 2008, a CBS produziu o filme “O corajoso coração de Irena Sendler” que mostra os fatos mais importantes da luta de Irena.  A intérprete de Sendler, Anna Paquin, foi indicada ao Globo de Ouro de 2010.

Após a guerra,  Irena Sendler  foi professora em escolas de saúde de Varsóvia e trabalhou no Ministério da Educação, coordenando programas sociais que cuidavam de crianças , idosos e  prostitutas. Teve sua aposentadoria abreviada por declarar apoio a Israel na Guerra com os árabes em 1967, quando os soviéticos romperam relações diplomáticas com o estado de Israel. Em 1980, ela participou do movimento Solidariedade, que determinou o fim do regime comunista na Polônia.

Em 2013, a jornalista polonesa Anna Miezkowaska escreveu o livro “A História de Irena Sendler: A mãe das crianças do holocausto”

Irena Sendler faleceu de pneumonia em Varsóvia, no dia 12 de maio de 2008, aos 98 anos.

Por:  Lauro Arruda Câmara Filho