Hermógenes: guru natalense

José Hermógenes de Andrade Filho,  nasceu em 9 de março de 1921, em Natal. O pai era funcionário público(contínuo) e a  mãe, Maria Isaura ( Dona Maroca), era dona de casa e  para ajudar nas despesas do lar exercia a  profissão de costureira.   Sua primeira  escola,  na rua Potengi,  onde morava,  era gratuita e administrada por espíritas . A segunda escola  foi na casa de Dona Filhinha, onde aprendeu a ler e escrever.  Depois transferiu-se para o Atheneu Norte-Riograndense, onde permaneceu  até concluir seus estudos secundários. Nessa época trabalhou no Teatro Alberto Maranhão como lanterninha e também dava aulas particulares de matemática.

Aos vinte anos, mudou-se para o Rio de Janeiro,  onde foi morar na casa da avó, em Madureira. Matriculou-se no curso gratuito pré-agronomia na Urca,  com interesse nas aulas de álgebra , português, aritmética e geometria,  que seriam úteis para o exame da Escola do Exército, seu objetivo. Época de grandes sacrifícios –  todos os dias gastava cerca de três horas entre trens e bondes para ir de Madureira para a Urca.

Na Escola do Exército, em Realengo, concluiu sua formação militar. Casou-se com Ione Maria, estudante de pedagogia, e teve duas filhas (Ana Lúcia e Ana Cristina). Continuou na escola militar como professor instrutor por vinte e quatro anos, onde lecionou história e filosofia. Chegou ao posto de Major e foi para reserva com a patente de Tenente Coronel.

Em 1956, aos 35 anos,  quando era capitão, adoeceu e depois de muitos exames recebeu o diagnóstico de tuberculose pulmonar, o que  na época era quase uma sentença de morte. Aceitou os tratamentos propostos, com medicamentos, repouso, super alimentação e com o doloroso pneumotórax terapêutico semanal (colapsoterapia), realizado sem anestesia. Durante sua enfermidade, Hemógenes dedicou-se à leitura dos filósofos brasileiros,  a literatura do espiritismo e a literatura indiana, principalmente Bhagavad Gita , a “bíblia” hindu.   Adquiriu dois livros sobre a Hatha Yoga, escritos em francês e inglês, e passou a praticar os exercícios no banheiro de sua casa, escondido da família,  pois a orientação médica era  para repousar.

Com a prática da ioga, passou a sentir melhoras  na respiração e na auto estima  . Passou a fazer meditação e adotou a dieta vegetariana para combater o excesso de peso adquirido com a super alimentação do tratamento da tuberculose.  Sobre a tuberculose,  Hermógenes contou:

 

“Meus pulmões pareciam casas de abelhas. Me atacou a laringe a ponto de me deixar afônico. Como o tratamento era à base de muita alimentação e muito repouso, quando terminou eu estava envelhecido e obeso, apesar de ainda estar na faixa dos 35 anos. O pior era o bloqueio psicológico e social que o médico me impôs. ‘Você não pode ficar no sol, pegar sereno, ir à praia, fazer ginástica’ e por aí afora. Até propôs que eu me aposentasse porque minha vida estava comprometida”.

 

Em  1955,  publicou o primeiro de uma série de mais de trinta livros, “A Pergunta que Ensina”, um método didático para ensinar História do Brasil.  Mergulhou nos livros de filosofia para, em 1960, publicar um livro revolucionário para a época,  “Autoperfeição com Hatha Yoga”, o primeiro manual do tipo publicado em língua portuguesa, atualmente na 50ª edição. Passou a dar aulas de ioga na garagem de sua casa, pois era muito procurado por pessoas impressionadas com sua cura e recuperação.

 

Um empresário amigo da época do Atheneu  ofereceu um espaço no centro do Rio de Janeiro para a instalação da  Academia Hermógenes de Yoga, fundada em 1962, que permaneceu na rua Uruguaiana até o ano de 2012, quando o prédio foi vendido. Atualmente a academia está na rua 1º de março,  sob a direção de Thiago Leão, neto do Prof. Hermógenes.

Em 1975,  professor Hermógenes foi eleito vice-presidente da Sociedade Teosófica no Brasil, : “Entendo a Teosofia pelo seu conceito original, essencial e verdadeiro.  É a Lei Eterna, a sabedoria que liberta. A Teosofia arrumou minha cabeça e me ensinou a viver, simultaneamente, o Hinduísmo, o Budismo e o Cristianismo. Isso me facilitou a entender que as religiões são ramos diferentes de uma só árvore, que se alimenta de uma mesma seiva”.

Prof. Hermógenes levou a ioga para a 32ª enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, especializada em doenças torácicas,a convite do Dr. Osmar Cerqueira.

 

Em 1979, viúvo, casou-se com Maria Bicalho, seguidora de  de Sathya Sai Baba. Com ela,  viajou inúmeras vezes à Índia,  onde teve a oportunidade de conhecer o mestre indiano. Foi um dos primeiros a trazer a mensagem de Sathya Sai Baba para o Brasil e, posteriormente, traduzir três de seus livros (“O Homem dos Milagres”; “O Fluir da Canção do Senhor (Gita Vahini) e “SADHANA, o Caminho Interior”) e fundar o primeiro centro dedicado ao mestre indiano no Brasil. A sua inauguração aconteceu no dia 27 de junho em 1987 e foi denominado Centro Bhagavan Sri Sathya Sai Baba do Rio de Janeiro, na Vila Isabel.

 

Em 1993, numa de suas viagens para a Índia, Maria foi atropelada por um caminhão e, após o acidente, ficou com sequelas neurológicas sérias. Sobre o acidente, Hermógenes declarou:

“A primeira coisa que fiz foi entregar minha mulher a Deus. Segue este esquema: entrego, confio, aceito e agradeço. E entrei em estado de tranquilidade. Se eu entrasse em pânico, o hospital iria tratar de dois, pois aos quase 72 anos eu poderia ter tido um enfarte, e outras tantas coisas. O pânico é o limite do estresse.”

 

Maria teve mal de Alzheimer e morreu em fevereiro de 2002, 8 anos e 8 dias após o acidente. Hermógenes dedicou os livros “Iniciação ao Yoga” e “Superação à Mulher”, com essa frase que sempre usa em momentos difíceis: “Entrego, confio, aceito e agradeço”. E completou: “Maria a mim não pertencia, logo não a perdi. Temos mania de achar que possuímos as coisas e as pessoas. Uma tremenda ilusão. Quando percebemos isso, a vida fica mais leve”. 

 

Publicou, entre outros, “Saúde na Terceira Idade” e “Yoga para Nervosos”. E perdeu a conta de seminários, aulas e palestras que fez no Brasil, em Portugal e na Argentina.

Entre tantas homenagens, o professor Hermógenes recebeu a Medalha de Integração Nacional de Ciências da Saúde e o Diploma d’Onore no IX Congresso Internacional de Parapsicologia, Psicotrônica e Psiquiatria (Milão, 1977), foi escolhido o Cidadão da Paz do Rio de Janeiro, em 1988 e recebeu a Medalha Tiradentes em 8 de maio de 2000, premiação conferida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, pelo bem-estar e benefícios à saúde que as obras de José Hermógenes de Andrade Filho trouxeram para os brasileiros.

O professor dividiu seu tempo entre a publicação de livros, a produção de artigos para a imprensa e teses para congressos científicos, e suas aulas, seja na forma de cursos ou seminários, não só na sua academia , mas também em instituições públicas e até em presídios , de forma gratuita, como o programa Mente Livre, na Penitenciária de Alcaçus (Parnamirim-RN). É considerado o pioneiro da medicina holística no Brasil. Filósofo, poeta, escritor e terapeuta, o professor Hermógenes costumava dizer que se sentia mais jovem aos 85 anos, do que aos 35.

 

Doutor em Yogaterapia, título concedido pelo World Development Parliament, da Índia, foi considerado o criador do treinamento anti-stress.

 

No documentário “Deus me livre de ser normal”, realizado por Marcelo Buainai, em 2007, Chico Xavier —  fala sobre Hermógenes e declara que “a ioga é uma bênção de Deus”. O título do filme é uma referência à doença que mais apavorava  o mestre:  a “normose“: “ É a doença de ser normal. As pessoas querem se encaixar num padrão — afirmava  o professor, criticando a correria do mundo moderno pelos padrões de comportamento socialmente aceitos. — A egoesclerose também é uma das doenças mais comuns; é a supervalorização do “eu”.

Além de Chico Xavier,  Hermógenes  também teve  outros encontros memoráveis com líderes espirituais como Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama e os filósofos indianos Krishnamurti e Sai Baba.

O mestre Hermógenes faleceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de março de 2015 , quatro dias após completar 94 anos de idade.

Por Dr. Lauro Arruda – Cardiologista