Por: Dr. Lauro Arruda Câmara Filho

A gripe espanhola foi uma pandemia que aconteceu entre 1918 e 1919, atingindo todos os continentes e deixando um saldo de, no mínimo, 50 milhões de mortos. Não se sabe o local de origem, suspeita- se que  pode ter sido na China, no Reino Unido ou nos Estados Unidos. Mas sabe-se que ela se iniciou de uma mutação do vírus Influenza(H1N1), que se espalhou das aves para os humanos.

A pandemia da gripe espanhola:: mais de 50 milhões de pessoas morreram no mundo

Os primeiros casos foram registrados nos Estados Unidos, numa instalação militar em Kansas  (Fort Riley), quando o soldado Albert Gitchell apresentou os sintomas da gripe, em 11 de março de 1918. Após algumas semanas, mais de mil e cem militares foram contaminados, e depois casos foram detectados em trabalhadores de fábricas em Detroit. A gripe espanhola espalhou-se pelo mundo principalmente, por conta da movimentação de tropas no período da 1ª Guerra Mundial, com impacto direto nos países que participavam desse conflito. Esses países não divulgavam notícias sobre a doença – o presidente norte americano Woodrow Wilson(1856-1924) censurou a imprensa para que as mortes não fosse noticiadas. Como a Espanha não estava envolvida diretamente  no conflito, as notícias sobre a doença vinham de lá, e por isso ficou conhecida como “Espanhola”.

Como a gripe espanhola chegou ao Brasil

Depois de ter navios cargueiros afundados por torpedos alemães, o presidente do Brasil, Wenceslau Bráz,  declarou guerra ao reino de Guilherme II – em meados de 1918,  enviou para o front francês 28 jovens oficiais sob o comando de um general e uma missão médica para implantar um “hospital brasileiro” perto de Paris. A missão era formada por 86 médicos, entre civis e militares, aos quais se juntaram seis médicos que já atuavam na França. Na sua ida para a Europa, essa frota fundeou em Dakar (Senegal), onde aconteceu uma tragédia: sua tripulação se expôs ao inimigo desconhecido e invisível, o vírus da influenza. Dos cerca de mil e 200 homens nos seis navios, mil adoeceram e 156 morreram. (https://hospitaldocoracao.com.br/novo/midias-e-artigos/artigos-nomes-da-medicina/divisao-de-saude-do-brasil-na-1o-guerra/)

Em setembro de 1918, o correio britânico “Demerara”,  vindo de Lisboa e com escalas em Dakar, Recife e Salvador, chegou ao Rio de Janeiro. A bordo, havia duzentos tripulantes em vários estágios da doença – a gripe  desceu do navio transportada pelos marinheiros e logo se espalhou pela cidade e pelo país, pois não havia medicamentos que a combatessem. A difusão foi rápida e afetou, sobretudo, as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Apesar de essas terem sido as duas cidades mais afetadas, todo o país foi atingido, inclusive regiões remotas como a Amazônia. Estima-se que dois terços dos habitantes de São Paulo (350 mil pessoas) foram contaminados, contabilizando 5 mil e 331 mortos. O Rio de Janeiro teve cerca de 12 mil e 700 mortos, um terço das mortes no Brasil.

Sintomas

Em carta escrita na época da pandemia (1918-1919), mas só publicada no British Medical Journal quase 60 anos depois, um médico norte-americano descreveu:

“A doença começa como o tipo comum de gripe, mas os doentes desenvolvem rapidamente o tipo mais viscoso de pneumonia jamais visto. Duas horas após darem entrada no hospital, têm manchas castanho-avermelhadas nas maçãs do rosto e algumas horas mais tarde pode-se começar a ver a cianose estendendo-se por toda a face a partir das orelhas, até que se torna difícil distinguir o homem negro do branco. A morte chega em poucas horas e acontece simplesmente como uma falta de ar, até que morrem sufocados. É horrível. Pode-se ficar olhando um, dois ou 20 homens morrerem, mas ver esses pobres-diabos sendo abatidos como moscas deixa qualquer um exasperado.”

Prevenção e tratamento

Naquela época não se conheciam os aparelhos respiradores nem os antibióticos e os vírus não eram vistos pelos microscópios existentes. Não existia um tratamento eficaz: os médicos receitavam quinino, medicamento usado para malária, e a população utilizava preparados à base de alfazema, limão, coco, cebola, vinho do Porto, sal de azedas, cachaça e fumo de rolo. O laboratório Bayer divulgava a Fenacetina, “tiro e queda contra a influenza, bem-estar com a rapidez de um raio.

Todos usavam máscaras ao sair de casa para se proteger da gripe

Medidas eficientes na prevenção ao contágio foram o uso de máscaras, quarentena, isolamento social com o fechamento de escolas, repartições públicas, teatros, cinemas, clubes, comércio e igrejas. Recomendava-se que a população evitasse aglomerações, lavasse as mãos com frequência e evitasse o contato íntimo. Pedia-se ainda às pessoas que não tossissem, espirrassem ou se assoassem em público; evitassem os trens, bondes e ônibus e que andassem a pé, se pudessem.

Consequências terríveis

O cientista Carlos Chagas, escolhido para comandar o combate à pandemia, conseguiu instalar cinco hospitais emergenciais e 27 postos de atendimento. Apesar das medidas preventivas e dos novos hospitais e postos,  ocorreram mortes em massa, que  trouxeram sérias conseqüências.

A falta de leitos hospitalares forçou o amontoamento de pacientes no chão de enfermarias e corredores: muitos morriam antes de ser atendidos. Os hospitais não permitiam visitas e, nos enterros, só eram permitidos os mais próximos.  As casas funerárias não davam conta da quantidade de falecidos – faltavam caixões, por falta de madeira e de pessoal para sua fabricação. As pessoas morriam e seus corpos ficavam nas portas das casas esperando que carroças ou caminhões os recolhessem. Às vezes, descobria-se que alguém dado como morto ainda respirava, e era liquidado a golpes de pás. Houve casos de enterrados vivos. Nos necrotérios, corpos se amontoavam por dias sobre as mesas de mármore ou no chão. Os recolhidos na rua sem identificação eram despejados em valas comuns ou queimados.  Os coveiros começaram a morrer e o Exército e a Cruz Vermelha os substituíram com voluntários.

Os doentes eram tantos que muitas atividades sofreram por não ter quem as desempenhassem: vender comida, transportar produtos, aplicar injeção. Sem telefonistas para lhes dar linhas, os telefones ficaram mudos. E veio a falta de produtos e a inflação: um ovo passou a custar o preço de uma galinha; e um pão, o de uma cesta inteira. Quando a falta de leite, carne e ovos ficou geral, começaram os saques aos açougues e armazéns.

A gripe espanhola não distinguia classes sociais. Levou gente pobre e também de famílias importantes, como os Nabuco, os Mello Franco, dois dos irmãos Lage (Jorge e Antônio, que dominavam a navegação marítima no Brasil com seus “itas”), o craque Belfort Duarte (jogador do América carioca, inventor do chute “sem-pulo”)  e até o presidente da república   Rodrigues Alves, reeleito na eleição presidencial de 1918, que faleceu em janeiro de 1919. Estima-se que a espanhola causou mais de 35 mil mortes no Brasil. Na França, entre suas vítimas estavam o dramaturgo Edmond Rostand, autor de Cyrano de Bergerac, e o poeta Guillaume Apollinaire. Na Áustria, Sophie, filha de Sigmund Freud. Na Alemanha, o economista Max Weber. Em Portugal, as crianças Francisco e Jacinta, do milagre de Fátima. Nos Estados Unidos, Rose Cleveland, irmã do presidente Grover Cleveland; e  John e Horace Dodge, da indústria automobilística.

Fim da pandemia

De repente, em fins de outubro de 1918, a Espanhola começou a amainar no Brasil. Os infectados se recuperavam, os doentes pararam de morrer e, aos poucos, a vida voltava ao normal. Com a Espanhola, foi-se também a guerra. No dia 11 de novembro, dentro de um vagão-restaurante à margem do rio Oise, afluente do Rio Sena, na França, os aliados e a Alemanha assinaram o Armistício –  o Brasil estava entre os países vitoriosos. Não tendo a quem vender café durante o conflito, os brasileiros diversificaram sua produção agrícola e como o país não tinha de quem comprar manufaturas, começaram a produzi-las aqui mesmo – em pouco tempo,  passamos de um país de enxadas e pés descalços para uma incipiente sociedade industrializada, que fabricava turbinas, elevadores, vagões ferroviários, tamancos, vasos sanitários, marmelada em lata, balanças, gravatas e cavaquinhos. Chaminés surgiram nas cidades e nasceu um embrião de classe operária, formada, em boa parte, por imigrantes recém-chegados.  E, de uma nova massa de funcionários públicos, surgiu uma classe média.

Fonte: METRÓPOLE A BEIRA MAR, o Rio moderno dos anos 20, RUY CASTRO, Companhia das Letras, 2019.