EDWARD JENNER: o criador da primeira vacina

Por: Lauro Arruda Câmara Filho

Edward Jenner nasceu na cidade de Berkeley, condado de  Gloucester, no sudoeste da Inglaterra, dia 17 de maio de 1749. Filho do clérigo anglicano Stephen Jenner, estudou em escolas locais e mostrou logo cedo o interesse pela biologia. Aos 14 anos, tornou-se aprendiz do cirurgião Daniel Ludlow, e aos 21,  entrou para o St. George’s Hospital, em Londres, a fim de trabalhar com John Hunter, o maior cirurgião da época.

Na Europa do século XVIII,  dez em cada cem europeus morriam de varíola humana (smallpox): em um único ano, cerca de 15 mil pessoas morriam na França, 72 mil na Alemanha e até 2 milhões  na Rússia. Os que sobreviviam à doença, além das marcas na pele ficavam, com frequência, cegos e/ou surdos.

Era do conhecimento de Jenner que desde a antiguidade, no extremo oriente, se utilizavam técnicas de inoculação. As técnicas consistiam em guardar, durante certo tempo, as roupas contaminadas pelos doentes de varíola para depois aplicar pequenos pedaços do tecido dessas roupas sobre escarificações feitas de propósito na pele de pessoas sãs. Este procedimento mostrava de forma empírica  a atenuação da virulência do agente pelo uso tardio dos fragmentos daquelas vestes, porém apresentava o risco de transmitir a doença.

Em algumas zonas rurais da Inglaterra, acreditava-se que quem já tivesse sido contaminado pela “varíola da vaca” (cowpox) estava livre de contrair a doença dos humanos. A “varíola da vaca” manifestava-se nos úberes do animal, em forma de pequenas erupções, e muitas vezes terminava sendo transmitida para os ordenhadores. O contágio se dava através de algum machucado que eles apresentavam nas mãos – neste machucado aparecia uma ferida semelhante a do animal. Após esse pequeno processo infeccioso, essas pessoas ficavam imunizadas.

Em 1789, Edward Jenner observou que as vacas atingidas pela varíola bovina (cowpox) tinham, nas tetas, feridas iguais às provocadas pela varíola no corpo de humanos. A varíola bovina era uma versão mais leve da varíola humana (smallpox). Em maio de 1796, Jenner resolveu pôr à prova a sabedoria popular que dizia que quem lidava com gado não contraía varíola humana. Ao observar que as mulheres responsáveis pela ordenha, quando expostas ao vírus bovino, tinham uma versão mais suave da doença, ele conduziu sua primeira experiência com James Phipps, um menino de oito anos,  usando nele pus das bolhas das mãos de Sarah Nelmes, uma leiteira que adquiriu a varíola bovina através do contato com gado. O menino teve um pouco de febre e algumas lesões, mas não desenvolveu a infecção, tendo uma recuperação rápida. A partir daí, Jenner pegou o líquido da ferida de outro paciente com varíola humana e novamente expôs o garoto ao material. Semanas depois, James Phipps não desenvolveu varíola. Estava descoberta assim a propriedade de imunização, que recebeu o nome de vacina (do latim vacca).

Edward Jenner e a vacinação

Um ano depois, em 1797, Edward Jenner publicou os resultados de sua experiência no tratado “Investigação Sobre a Causa e os Efeitos da Varíola Vacum”, que foi apresentado à Royal Society de Londres, a  Academia de Ciências do Reino Unido, mas as provas que ele apresentou foram consideradas insuficientes. Jenner realizou então novas inoculações em outras crianças, inclusive no seu próprio filho. Em 1798, o seu trabalho foi reconhecido e publicado. No entanto, os seus críticos procuravam ridicularizá-lo, denunciando como repulsivo o processo de infectar gente com material colhido de animais doentes, usando textos como esse:

“Um monstro poderoso e horrível que devora a humanidade, especialmente as crianças indefesas, e que acaba não somente com milhares de vítimas mas com centenas de milhares. Possui os chifres de um touro, as patas de um cavalo, as garras de um tigre e o rabo de uma vaca. Abriga no seu ventre os males da caixa de Pandora; pragas, pestilência, lepra, úlceras fétidas e lesões supurantes cobrem seu corpo, e uma atmosfera de doença, de dor e morte o rodeia. Tal criatura recebe o nome de “vacina” e , estranhamente, não somente conta com uma multidão de amigos, mas também com uma multidão que a venera e que se prostra diante dela, aumentando o seu apetite cruel e voraz.”

Apesar de toda campanha difamatória, as vantagens da vacinação logo se tornaram evidentes, criando imunidade à varíola humana, uma das doenças epidêmicas mais mortais da humanidade.

Jenner recebeu diversas honrarias e reconhecimentos em todo o mundo. O Parlamento Inglês o fez Cavaleiro e o premiou com 20 mil libras esterlinas. A Universidade de Oxford concedeu-lhe título honorário. Ele também se dedicou a outras áreas de pesquisa, colecionando fósseis e realizando pesquisas em horticultura. A primeira descrição da arteriosclerose foi feita por ele, sendo, talvez, o descobridor da causa da angina do peito, embora esta descoberta seja atribuída a William Heberden (1710-1801).

Em 25 de  janeiro de 1823, Jenner apresentou sintomas de acidente vascular encefálico, e teve a parte direita de seu corpo paralisada. Após um segundo ataque, faleceu no dia seguinte, aos 73 anos. Foi sepultado no jazigo da família Jenner, na Church of St. Mary, Berkeley, Inglaterra.

Em 1840, a partir de uma mudança na técnica de produção da vacina antivariólica de Jenner,  desenvolveu-se a “vacina animal”, diretamente retirada da pústula da vaca e inoculada no homem.

A vacina no Brasil

Atribui-se ao cirurgião-mor Francisco Gomes Ribeiro as primeiras escarificações feitas no Brasil, em 1798, mas os resultados foram poucos satisfatórios. O emprego em grande escala da vacina anti-varíola entre nós ocorreu na Bahia, no ano de 1804, por iniciativa de Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira, o Marquês de Barbacena.

Este pioneirismo sempre foi motivo de disputa pelos dois personagens. A disputa era levada tão a sério que a filha do Marquês de Barbacena, Ana Constança Caldeira Brant, Viscondessa de Santo Amaro, tentou introduzir o busto de seu pai em uma das salas do Instituto Vacínico do Rio de Janeiro (equivalente à FIOCRUZ de hoje), o que causou protestos da família de Francisco Ribeiro, representado por seu filho, Antônio Mendes Ribeiro. Ele alegava que em  seu pai praticara a primeira imunização no Brasil. Sem querer tomar partido na briga, o Imperador D. Pedro II, determinou que o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro esclarecesse a dúvida. Coube ao médico e escritor Joaquim José de Macedo (autor do célebre romance “A Moreninha”) e ao historiador Joaquim Norberto de Souza realizarem uma pesquisa documental, reunida em 19 páginas,  com o título “Parecer sobre a introdução da vacina no Brasil”. No texto, de 1859, fica provado e indicado pela dupla de pesquisadores que Barbacena trouxe a técnica Jenneriana  para o Brasil e que Francisco Gomes Ribeiro fazia, ele próprio, a inoculação, mas de forma bastante arriscada.

Erradicação da varíola

A varíola só seria controlada em 1975 e finalmente erradicada em 1980, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Isto se deveu, sobretudo, aos esforços coordenados de saúde pública, sendo que, indubitavelmente, a vacina foi um componente essencial. Apesar da doença ser declarada erradicada, algumas amostras de pus contaminado com o vírus causador da doença são mantidas em laboratórios, no Centro de Controle e Prevenção de Doenças, em Atlanta, nos Estados Unidos, e no Centro Estadual de Pesquisa em Virologia e Biotecnologia VECTOR, em Koltsovo, na Rússia.