A HISTÓRIA DA ASPIRINA

Por:  Dr. Lauro Arruda Câmara Filho

O químico Felix Hoffmann patenteou o ácido acetilsalicílico, se tornando o descobridor oficial do medicamento

A interessante história do ácido acetilsalicílico, conhecido popularmente como aspirina, começou há mais de 3 mil e 500 anos. O ácido origina-se do ácido salicílico, ou salicilato, substância presente em diversas plantas utilizadas como medicamentos. O nome aspirina deriva de Spiraeaum gênero botânico cujas espécies mais conhecidas são:  buquê de noiva, barba de bode e paineira. O salicilato também ocorre em muitos arbustos (jasmim, granza, solda branca); árvores (faia, bétula, oliveira, álamo e salgueiro); em legumes (ervilhas, feijões, trevos) e em gramíneas (trigo, centeio, cana de açúcar).  Uma coleção de anotações datadas de cerca 1.500 a.C. (antes de Cristo), conhecidas como papiros de Ebers, já recomendava o uso da infusão de folhas secas de murta para o alívio de dores reumáticas. Mil anos depois, Hipócrates, o pai da medicina, prescrevia sucos da casca do salgueiro para aliviar as dores do parto e diminuir a febre, além de recomendar o uso tópico de suas folhas   como antisséptico nos cuidados pós-parto e a casca do álamo para várias doenças dos olhos.

Teofrasto, botânico pioneiro que sucedeu Aristóteles como diretor do Liceu de Atenas, proclamava a excelência analgésica da casca da granza e também sua ação diurética suave. Somente centenas de anos mais tarde é que se deu nome de salicilato a esta substância presente nestas infusões e capaz de aliviar dores e febre. Seu nome deriva-se de salix, denominação latina ao grupo de plantas a que pertence o salgueiro.No ano 75 d.C. (depois de Cristo), Dioscorides, cirurgião grego a serviço do exército romano, fez experiências com uma pasta composta de cinzas de salgueiro para remover qualquer calosidade e combater os tormentos da gota. Plínio, o Velho, enciclopedista romano, colocou o suco de salgueiro na lista dos diuréticos e propôs uma infusão de casca de álamo para tratar a dor ciática.Índios norte-americanos usavam o suco da casca do salgueiro para combater a febre; e os hotentotes, da África do Sul, ferviam folhas do salgueiro em água e as usavam para minorar as dores do reumatismo. O salgueiro e outras plantas saliciladas eram muito usadas também pelos habitantes primitivos do Mediterrâneo.

O sacerdote e naturalista inglês do século XVIII, Edward Stone, introduziu o salgueiro nos laboratórios de química científica, comprovando seus efeitos farmacológicos em um ensaio com 50 pacientes, publicado pela Royal Society of London. O princípio ativo da casca do salgueiro foi identificado pelos químicos italianos Fontana e Brignatelli em 1826. Três anos mais tarde, um farmacêutico francês, Henri Leroux, conseguiu isolá-lo. Em 1838, o químico italiano Rafaelle Piria realizou a extração do ácido salicílico. Quase ao mesmo tempo, na Suiça, o farmacêutico Pagenstecher descobriu que podia obter o ácido salicílico nas plantas barba de bode e buquê de noiva. Em 1853, o químico alsaciano Charles Fréderic Von Gerhard acrescentou acetato ao ácido salicílico e obteve o ácido acetilsalicílico, mas considerou-o apenas uma novidade. Em 1874, o professor de química Herman Kolbe, da Universidade de Leipzig, Alemanha, publicou no Journal für Praktische Chemie, um artigo sobre um processo econômico para a produção sintética do ácido salicílico.

Em 1897, na cidade de Düsseldorf, também na Alemanha, o químico Felix Hoffmann, que trabalhava para a Friedrich Bayer & Co, descobriu a utilidade do ácido acetilsalicíco ao testar várias substâncias em seu pai, que padecia de artrite reumatoide. O químico elaborou o analgésico e o patenteou no Gabinete de Patentes dos Estados Unidos, sendo, portanto, seu descobridor oficial. Em 1899, o medicamento passou a ser comercializado pela Bayer na forma de pó. O nome ASPIRIN vem dos compostos usados na fabricação do remédio: “A” de Acetil, “SPIR” da planta Spiraea ulmaria (de onde era retirada a Salicin) e “IN”, sufixo comum para medicamentos. Existe, porém, uma lenda que diz que o nome vem do Santo Aspirinus, que foi  Bispo de Nápoles e o padroeiro das dores de cabeça.

No ano de 1900, a aspirina passou a ser o primeiro medicamento a ser comercializado na forma de comprimido. No Brasil, chegou em 1901. A aspirina foi registrada internacionalmente pela Bayer em 1906 – na época, era chamada de The Wonder Drug (a droga maravilha). Depois da I Guerra Mundial,  a Companhia Bayer, alemã, teve confiscado o direito sobre a patente e foi proibida de usar a marca aspirina, por ser “propriedade inimiga”. Só voltou a deter os direitos da marca nos Estados Unidos em 1994, depois de comprar a empresa que tinha ficado com eles.

Por ser barata, é a droga de uso mais disseminado sobre a face da terra:  são produzidas anualmente 40 toneladas e foram publicados mais de 26 mil trabalhos científicos sobre ela. Em 1966, o Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, fez uma pesquisa onde perguntou qual seria a invenção que as pessoas não estavam dispostas a abdicar – a aspirina teve duas vezes mais citações do que o computador pessoal. Em 1969, as aspirinas da Bayer foram incluídas no kit de automedicação que os astronautas da missão Apollo 11 levaram para a Lua.

Em 1971, John Vane, professor de Farmacologia na Universidade de Londres, publicou, na Nature New Biology, os mecanismos de ação da aspirina. O investigador descobriu que o fármaco inibia a síntese de prostaglandinas, moléculas envolvidas nos processos inflamatórios e na formação de coágulos. Essa descoberta ampliou o uso do medicamento, que, além das já conhecidas funções de antitérmico, antiinflamatório e analgésico, passou a ser usado como antiagregante plaquetário no tratamento e prevenção do infarto do miocárdio, AVC (trombose cerebral) e outros distúrbios da coagulação. Em 1982, John Vane, juntamente com Bengt Samuelsson e Sune Bergström, ganhou o prémio Nobel de Medicina e Fisiologia.

A aspirina  foi o primeiro fármaco a ser sintetizado na história da farmácia e não recolhido na sua forma final da natureza, e é um dos mais antigos agentes terapêuticos com contínua produção – é usada atualmente por 216 milhões de pessoas no mundo.

João Cabral de Melo Neto

 

O poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999) padeceu a maior parte de sua vida de uma dor de cabeça diária, de causa jamais diagnosticada, apesar de inúmeros exames feitos por ele. Para combater a dor, converteu-se em um consumidor persistente da aspirina: durante anos, Cabral ingeriu diariamente vários comprimidos do medicamento.

Essa convivência diária com a aspirina, como fosse ela uma mulher que lhe minorasse a dor da alma, fez com que João Cabral escrevesse um poema em homenagem ao medicamento, denominado “Num Monumento à Aspirina“, que integra o livro “A Educação pela Pedra“:

 

Num monumento à aspirina –   João Cabral de Melo Neto

 

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

*

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

(Em A educação pela pedra – 1966)