A história do embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, que não foi médico mas ajudou a salvar muitas vidas ameaçadas pelo nazismo

Embaixador Souza Dantas

Por: Dr. Lauro Arruda Câmara Filho

Luiz Martins de Souza Dantas nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de fevereiro de 1876, de família tradicional da Bahia, bem relacionada com a monarquia.

Após concluir os estudos de Direito aos 21 anos, ingressou no Ministério das Relações Exteriores já no período republicano e foi nomeado para seu primeiro posto diplomático em Berna, na Suiça. Galgou todos os degraus da carreira diplomática e serviu em diversas capitais do mundo. Trabalhou em São Petersburgo, antiga capital russa; em Buenos Aires em duas ocasiões, sendo ministro plenipotenciário na Argentina em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918); foi nomeado ministro interino das Relações Exteriores e durante alguns meses respondeu pelo Itamaraty. Em 18 de janeiro de 1919, fez parte da Delegação do Brasil junto à Conferência de Paz de Paris, na França,  como Delegado Plenipotenciário. Neste ano,  chegou ao posto de embaixador, quando passou a chefiar a representação brasileira em Roma, Itália.

Em fins de 1922, Souza Dantas foi nomeado embaixador do Brasil na França, cargo em que permaneceria até 1944 – foi o embaixador com maior tempo de atividade na capital francesa. Entre 1924 e 1926, durante alguns períodos, foi também o representante do governo brasileiro na Liga das Nações – órgão que reunia representantes de vários países com o intuito de zelar pela paz mundial, precursora da ONU (Organização da Nações Unidas).

Diplomata experiente, dotado de grande inteligência e perspicácia, Dantas circulava entre os mais altos e restritos círculos diplomáticos. Cedo, compreendeu a catástrofe que estava prestes a se abater sobre a humanidade com a ascensão do nazismo. Como costumava dizer, aquela “era uma época de trevas e barbáries“.  Enviou também inúmeras cartas ao governo brasileiro criticando Hitler, que, em suas palavras, “agia com a truculência de costume“, e reafirmando seu repúdio ao nazismo.

Em 1940, com a iminência da invasão alemã ao Norte da França, o governo francês se retirou para o sul, instalando o governo colaboracionista do Marechal Philippe Pétain na cidade de Vichy. O corpo diplomático estrangeiro o acompanhou. Souza Dantas já vinha intercedendo em favor de refugiados do nazismo desde a sua saída de Paris. É possível comprovar o envolvimento pessoal e direto do embaixador, que começou a emitir os primeiros vistos diplomáticos “irregulares” de próprio punho. A maioria desses documentos (mais de mil) foi concedida em Vichy e beneficiava não apenas judeus, mas também qualquer pessoa ameaçada pelo nazismo.

O  Itamaraty já havia baixado uma série de leis e circulares que dificultavam a entrada no Brasil de pessoas “de raça semítica”. Nos meios governamental e intelectual brasileiro, os judeus eram considerados indesejáveis. Desde 1930, o Brasil regulamentara a entrada de imigrantes por um sistema de cartas de chamada e cotas por nacionalidade. Apesar desses entraves, os judeus continuaram a entrar no Brasil. Na década de 1930, havia 40 mil judeus no país e, em 1940, eram 55 mil.

Cerca de 500 vistos diplomáticos foram emitidos entre meados de junho de 1940 e 12 de dezembro do mesmo ano – data em que Souza Dantas foi proibido formalmente de conceder qualquer tipo de visto. Entretanto, muitos refugiados estiveram com o embaixador nos primeiros meses de 1941 e receberam vistos com datas anteriores a 12 de dezembro de 1940. Ou seja, ele ainda concedeu alguns vistos, mesmo depois de ter sido repreendido e proibido.

Diplomata à antiga, um bon-vivant, apreciador das artes, da música, da boa comida e de lindas mulheres, foi amante da atriz Madeleine Carlier, seu grande amor. Impecável anfitrião dos brasileiros em Paris,  era também um grande filantropo. Solteirão inveterado, foi somente aos 57 anos, em 1933, que Souza Dantas resolveu casar-se por interesse mútuo, ele para poder freqüentar a alta sociedade francesa e ela para não pagar impostos sobre seus bens, já que diplomatas eram isentos. Casou-se com  a viúva milionária Elise Meyer Stern, que apesar da origem judaica era católica, irmã de Eugene Meyer, dono do jornal americano Washington Post.

Em 12 de novembro de 1942, quando as tropas alemãs ultrapassaram a linha de demarcação e invadiram a parte ainda não ocupada do território francês, quebrando o armistício de 1940, Souza Dantas tentou mais uma vez, com sua costumeira bravura, enfrentar a Gestapo.  Quando as tropas alemãs ocuparam também Vichy, a Embaixada brasileira não ficou livre da violência nazista. Ainda mais que o Brasil rompera relações diplomáticas com a Alemanha a 28 de janeiro daquele mesmo ano e declarara guerra à Alemanha em agosto seguinte. O embaixador, alertado de que um pelotão militar invadira o prédio da Embaixada, dirigiu-se imediatamente para lá, protestando, aos gritos, contra aquela “inominável violação dos mais elementares princípios do direito internacional“. A reação do oficial da Gestapo foi apontar suas pistolas contra o velho embaixador e prender todos os brasileiros, que foram enviados de trem para um confinamento de 14 meses na Alemanha, em Bad Godesberg (distrito de Bonn). Os diplomatas brasileiros foram libertados em uma troca por prisioneiros alemães detidos no Brasil, mediada por Portugal.

Em 21 de dezembro de 1944, Getúlio Vargas inscreve o nome de Souza Dantas no Livro do Mérito Nacional. Retornando no ano seguinte à Europa com a esposa, Souza Dantas se envolveu na criação da Maison de l´Amerique Latine, em Paris, e depois presidiu o Instituto Francês de Altos Estudos Brasileiros. Enquanto durou o Estado Novo no Brasil, Vargas tratou de manter Dantas afastado da vida pública e da evidência. Mas, com o fim da era Vargas, o embaixador saiu do ostracismo diplomático.

Já aposentado, Souza Dantas foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores para chefiar a delegação brasileira na primeira Assembleia Geral das Nações Unidas, em Londres, entre 10 de janeiro e 14 de fevereiro de 1946, sendo o primeiro brasileiro a discursar nesta organização .

No final de sua vida,  Souza Dantas esteve pela última vez no Brasil, entre julho de 1951 e o final de 1952. A esposa Elise, completamente senil, foi levada por sua família de volta aos Estados Unidos, onde faleceu em 1953. Sem o amparo financeiro dela e já muito doente, Souza Dantas, que morava no Hotel Ritz de Paris, morreu pobre e abandonado, em um quarto do Grand Hotel, na Praça Ópera, em 14 de abril de 1954. Seu corpo foi transportado de navio para o Brasil, onde foi enterrado um mês depois de sua morte, no cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Não deixou descendentes ou bens.

A Globo filmes lançou em agosto de 2018 o filme Querido Embaixador, do diretor Luiz Fernando Goulart , que mostra os feitos diplomáticos de Sousa Dantas, salvando pessoas do holocausto durante a Segunda Guerra Mundial , baseado no livro “Quixote das Trevas” de Fábio Koifman.

Em 10 de dezembro de 2003, Souza Dantas recebeu nobre título humanitário de “Justo entre as Nações”, que homenageia quem arriscou a vida para salvar os judeus da perseguição do Nazi-facismo no Jardim dos Justos do Museu do Holocausto Yad Vashem, de Jerusalém*.

*Só mais um brasileiro detém este título: Araci de Carvalho Guimarães Rosa, esposa do escritor e diplomata João Guimarães Rosa e Oficial da Chancelaria brasileira no consulado brasileiro de Hamburgo na Alemanha, em razão de suas ações humanitárias na defesa de minorias, em particular a judaica, perseguidas durante a guerra.