Sarampo: devo me preocupar?

Por Dr. André Prudente – Infectologista

    Sarampo é uma doença infecciosa, altamente contagiosa, provocada por um vírus da família Paramyxoviridae e gênero Morbillivirus, que acomete principalmente crianças.

     Felizmente, é imunoprevenível. E a História é a maior prova.

     Até 1980, quando a vacinação ainda não era difundida, causava mais de 2 milhões de óbitos ao ano em todo o mundo. Com a imunização em massa, o número de casos caiu drasticamente, permanecendo em zero por diversos anos nos países que adotaram a vacina como programa de saúde pública. Em 2014, o Brasil recebeu o certificado de eliminação da doença pela Organização Pan-Americana de Saúde.

      Infelizmente, o ano de 2018 não tem sido dos mais felizes na recente história da doença no país, inclusive motivando uma campanha de (re)vacinação de grande parte da população.

 SITUAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA ATUAL

      Desde fevereiro o Brasil assiste um número crescente de casos, totalizando mais de 6 mil notificações, sendo 1.100 confirmados até 06 de agosto.

     O Amazonas, com 788 confirmações e 5.058 em investigação, seguido de Roraima, com 281 casos e 111 em investigação são os dois estados com surtos estabelecidos.

      Outras unidades da federação também relataram casos, a saber: Rio de Janeiro (14), Rio Grande do Sul (13), Pará (2)s, São Paulo e Rondônia (1 em cada).

       Quatro óbitos em Roraima e 1 no Amazonas entristecem ainda mais a situação atual.

      Acredita-se que a doença tenha entrado no país via migração venezuelana. Corrobora com esta hipótese a epidemia que o país vizinho enfrenta, principalmente no estado de Bolivar (fronteira com Roraima e próximo ao Amazonas). Além disso, o genótipo D8 que circula na Venezuela desde 2017 é o mesmo encontrado esse ano nos casos brasileiros. Contudo, não devemos inocentar o Brasil como um todo, já que o atual surto só é possível pela diminuição da cobertura vacinal nos últimos anos.

       Estima-se que se 95% do público alvo (crianças até 5 anos) for vacinado, a comunidade estará livre do risco de epidemias de sarampo. Em 2017, 83% das crianças receberam a primeira dose da vacina (tríplice viral) e 70% a segunda (tetra viral).

    Sendo assim, todo cidadão brasileiro deveria se engajar na campanha de vacinar aqueles que estão contemplados na campanha de imunização que deverá se encerrar com o fim do mês de agosto, a fim de evitarmos que a situação, por ora preocupante, torne-se insustentável.

     Transmissão

       A transmissão é predominante aérea, quando um indivíduo infectado elimina secreções pela fala, tosse ou espirro. O período de transmissibilidade vai de 4 dias antes até 4 dias após o surgimento do exantema (manchas no corpo). Por isso, espalha-se facilmente entre os susceptíveis, já que, mesmo antes do quadro clínico estabelecer-se, o vírus está sendo transmitido.

      Sarampo pode acometer qualquer pessoa sem imunidade específica. Mas, não de maneira igual. As condições socioeconômicas, nutricionais e imunitárias influenciam drasticamente a evolução clínica e a taxa de letalidade.

     Predomina em crianças, mas as pessoas podem adoecer em qualquer idade.

Quadro clínico

     O período de incubação (tempo entre o contágio e o surgimento do primeiro sintoma) varia entre 7 e 14 dias. Tende a ser mais longo nos adultos.

       A evolução clínica clássica apresenta 3 períodos bem definidos:

  1. prodrômico ou catarral

  2. de estado ou exantemático

  3. de convalescença ou de descamação furfurácea

Período prodrômico ou catarral

      Dura 6 dias em média. É caracterizado por febre alta que pode atingir até 40ºC acompanhada de tosse com secreção, coriza, conjuntivite, inflamação da mucosa oral e faríngea (garganta), além de diarreia. Linfonodos cervicais (pescoço) e intra-abdominais podem estar presentes e costumam ser dolorosos, motivo pelo qual crianças menores tendem a chorar copiosamente. A diarreia pode ser intensa o bastante para desidratar e até ser ser causa de óbito, sobretudo em infantes desnutridos.

Nas últimas 24 horas deste período, surgem pequenas máculas brancas com halo avermelhado na mucosa oral, chamadas de “manchas de Koplik”. São patognomônicas, isto é, exclusivas do sarampo. Podem durar até 24 horas após o surgimento do exantema.

Manchas de Koplik

Período de estado ou exantemático

     É a fase mais marcante da doença. Há piora de todos os sintomas do período anterior, com prostração importante, febre alta, tosse abundante e surgimento do característico exantema (manchas no corpo).

     O exantema evolui de maneira bem peculiar, com distribuição cefalocaudal (da cabeça aos pés). Sendo assim, aparece na face e pescoço no primeiro dia. No segundo, acomete o tronco. Já as extremidades (mãos e pés), no terceiro dia. Podem durar até 7 dias e se apresentam como manchas avermelhadas e sobrelevadas.

     Pneumonia é uma complicação relativamente comum nessa fase.

Exantema mobiliforme (em forma de sarampo)

Período de convalescença ou descamação furfurácea

    Nesta fase, a febre já não mais existe, assim como a maioria dos outros sintomas. Sobretudo, a tosse pode persistir ainda por mais 10 dias.

    O exantema torna-se mais escurecido e começa uma descamação fina, lembrando farinha. Daí o nome “furfurácea”.

     Como muitas outras doenças virais, a indisposição pode permanecer por dias, assim como dificuldade de concentração e irritabilidade.

     Ainda que rara, encefalite pode surgir até 20 dias após o surgimento do exantema (leia sobre encefalite aqui).

Exames laboratoriais

     Sarampo costuma cursar com leucocitose (aumento do número de leucócitos) em suas fases iniciais, podendo induzir os mais desavisados ao diagnóstico de infecções bacterianas. Evolutivamente, a característica marca de doenças virais (leucopenia com linfocitose) tende a predominar. Plaquetopenia pode estar presente.

     O exame confirmatório mais importante é o isolamento viral. Deve ser feito nos primeiros dias, em secreções da oro e nasofaringe, além da urina.  Nas fases tardias, sorologias podem ser requeridas.

     Ressalta-se que o quadro clínico, por ser bem característico, é suficiente para suspeita clínica e início dos cuidados. A confirmação laboratorial é de suma importância para flagrar a circulação do vírus e sua linhagem.

Tratamento

     Não há tratamento específico para o sarampo. Hidratação, repouso e controle dos sintomas mais danosos são salutares. Atenção especial deve ser dada à nutrição dos enfermos. Suplementação de vitamina A pode ser benéfica em desnutridos.

     Antivirais não são eficazes, mas antibacterianos são necessários na presença de pneumonia.

     Encefalites devem ser manejadas em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Prevenção

     A melhor forma de prevenção é com a vacinação.

     O bom estado nutricional e imunitário diminuem o risco da doença se agravar.

     Aglomerações humanas devem ser evitadas em situações de surto.

REFERÊNCIAS

1- Pan American Health Organization / World Health Organization. Epidemiological Update Measles. Disponível em https://www.paho.org/hq/index.phpoption=com_topics&view=article&id=255&Itemid=408&lang=en Acessado em agosto de 2018.

2- World Health Organization (WHO). Global Measles and Rubella Update – June 2018. Disponível em: http://www.who.int/immunization/monitoring_surveillance/burden/vpd/surveillance_type/active/Global_MR_Update_June_2018.pdf?ua=1 Acessado em agosto de 2018.

3-  Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Measles. Disponível em: https://www.cdc.gov/measles/hcp/index.html Acessado em agosto de 2018.

4- Brasil. Ministério da Saúde. Situação dos Casos de Sarampo nos Estados de Roraima e Amazonas– 2018. Disponível em: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/julho/04/Informe–n13-Sarampo-CGDT-04-07-2018.pdf. Acessado em agosto de 2018.  

5- American Academy of Pediatrics. Measles. In: Kimberlin DW, Brady MT, Jackson MA, Long SS. eds. Red Book: 2018 Report of the Committee on Infectious Diseases. 31st ed. Itasca, Il. AAP; 2018. p 537-51.